Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Às vezes, para entender uma história, é preciso começar pelos números: entre os conteúdos mais vistos e comentados sobre o percurso da tocha olímpica há a passagem em ritmo de rap de Snoop Dogg a Gallarate. Logo em seguida, vem Sunghoon. Chamado não sem ironia de “o Snoop Dogg da Coreia”, ele é a figura escolhida por Seul para narrar parte das Olimpíadas com a sua presença nos eventos centrais.
Recebido por uma multidão em êxtase, Sunghoon desfilou com a tocha olímpica pelas ruas de Milão e a entregou ao chef Carlo Cracco. Ídolo global do K-pop, membro do ENHYPEN e seguido por milhões, ele não compete em 2026: não entrou na pista em busca de medalha — embora, em certa medida, a pista tenha marcado sua vida.
Antes dos palcos, Sunghoon foi um patinador artístico de alto nível. Mais de uma década sobre o gelo, treinos extenuantes, competições e a pressão de quem busca um lugar entre os melhores. Chegou a integrar a seleção sul-coreana como suplente, a um passo de disputar uns Jogos. Depois, mudou de “academia”: trocou a rotina esportiva pela da música. Os treinos e a exigência permaneceram; as competições deram lugar a palcos internacionais.
Carregar a tocha é, portanto, um retorno simbólico a um mundo que nunca abandonou completamente. Em entrevista à Teen Vogue, Sunghoon definiu a participação na revezamento de Milão-Cortina 2026 como um dos momentos mais significativos de sua vida pública, justamente por sua ligação com a formação esportiva.
O artista sublinha que sua presença não deve ser lida como um ato estritamente pessoal, mas como parte de um relato coletivo. Mostra respeito pelos atletas em competição e afirma que, mesmo sem competir, partilha uma porção da experiência olímpica — um sentimento que reafirmou em postagens nas redes sociais.
Sunghoon é o segundo artista do K-pop a integrar uma staffetta olímpica, depois de Jin, do BTS. A escolha revela algo maior: não é apenas sobre celebridade, mas sobre a capacidade da Coreia de entrelaçar cultura pop e eventos esportivos globais. Não surpreende que o hino coreano para estes Jogos seja SHOUT OUT, faixa do ENHYPEN que fala de resistência, unidade e impulso coletivo — temática que a delegação sul-coreana quer transpor para a competição.
A Coreia não depende apenas de uma anedota midiática como as “garlic girls” do curling em 2018; aposta em atletas que também são figuras digitais, com alcance global e capacidade de mobilizar audiências. Logo após a chegada de Sunghoon a Milão, Cha Jun-hwan, estrela do patinação artística masculina, recebeu acolhida igualmente calorosa: aplausos, buquês e a presença visível de uma torcida conectada.
Mais do que um episódio de celebridade, a participação de Sunghoon no revezamento da tocha revela a estratégia sul-coreana de narrar as Olimpíadas como um evento cultural além do esporte — um esforço de soft power que transforma atletas, artistas e símbolos em instrumentos de representação nacional.
Como analista, observo nisso uma convergência histórica: estádios e palcos se tornam plataformas de identidade. A presença do K-pop nas Olimpíadas não diminui a centralidade da competição; amplia o palco simbólico no qual as nações se mostram e se reinventam. Em 2026, a Coreia faz isso com elegância planejada — e com rostos que traduzem a própria história de cruzamento entre gelo e espetáculo.
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Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia






















