Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Em uma conversa franca no podcast de Paola Perego, Carlo Conti relembrou momentos decisivos da sua trajetória e revelou que foram dois os grandes ‘nãos’ que marcaram sua carreira. O apresentador e diretor artístico do Festival di Sanremo 2026 contou ao público, com a elegância de quem conhece os bastidores do espetáculo, que uma recusa foi à própria condução do festival e a outra veio diante de uma oferta tentadora da Mediaset.
Segundo Conti, a primeira vez que o convidaram para apresentar o Sanremo ele não se sentiu pronto. “Eu disse ‘não, obrigado, se fosse daqui a alguns anos’. Não me via capaz de assumir um transatlântico desse porte”, afirmou. Anos depois, em 2015, aceitou não apenas a apresentação, mas sobretudo a direção artística: “Sanremo não é só conduzir, é tudo que existe antes. O que se vê é a ponta do iceberg”. Para ele, a direção exige sensibilidade, equilíbrio e a capacidade de propor algo novo a cada edição.
O segundo ‘não’ foi a uma proposta da Mediaset no auge do sucesso do seu programa preserale In bocca al lupo, que registrava recordes. Havia uma diferença salarial considerável — quase um zero a mais —, mas Conti preferiu recusar. “Não tinha bem entendido qual era o papel que deveria desempenhar e senti que tinha um espaço na Rai. Preferi não abandonar esse caminho e sempre permaneci fiel”, contou. Essa decisão, disse ele, reflete mais do que pragmatismo financeiro: é uma escolha de identidade profissional e de lealdade institucional.
Sobre a edição de 2026, Conti anunciou que será dedicada a Pippo Baudo. Ele explicou que todos que passaram pelo festival depois de Baudo aprenderam com ele: do formato de cinco noites ao combustível das polêmicas. “Não sou herdeiro de Baudo, não exageremos”, ponderou, mas admitiu que parte do seu estilo e da sua atenção ao trabalho de bastidor provém desse legado. Baudo, segundo Conti, ensinou a diferença entre ‘apresentar’ e ‘conduzir’: apresentar pode ser para qualquer um, conduzir é fazer uma regia em cena, ditar tempos e levar o programa aonde se deseja.
Em uma leitura sobre a indústria musical e os convidados internacionais, Conti lembrou que o cenário mudou. As grandes estrelas estrangeiras já não veem necessidade de vir a Itália para promover um single; um post nas redes sociais muitas vezes basta. O efeito é que a parada musical italiana ganhou força: hoje há mais canções nacionais em destaque do que há uma década. As críticas sobre a presença de poucos nomes conhecidos em Sanremo são, para ele, um refrão que se repete. O festival continua sendo, porém, um espelho do nosso tempo e um palco em que se negocia memória, novidade e o roteiro oculto da sociedade.
Ao final, Conti reforça sua predileção pelo trabalho nos bastidores: “O que mais gosto é construir as edições, fazer a regia que ninguém vê e que, no entanto, define o que o público receberá.” Entre recusas e escolhas, o panorama que ele traça é o de um artista que entende que o sucesso também é feito de renúncias calculadas — e de responsabilidade cultural.






















