Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Na terceira aparição no festival, Leo Gassmann retorna a Sanremo 2026 apresentando o single Naturale, definido por ele como um verdadeiro “grito de amor” para enfrentar um tempo que descreve como complexo e violento. Com uma nova consciência artística e um projeto que casa música e engajamento social, Gassmann prepara também o lançamento do álbum Vita Vera Paradiso, previsto para 10 de abril.
Em conversa com a imprensa, o cantor não titubeia ao dizer que cantar o amor hoje é fundamental. “Cantar o amor hoje é uma coisa fundamental, ainda mais do que antes, porque vivemos um período histórico muito complexo, muito violento e estamos vendo nossos direitos serem tirados”, afirma o artista, evidenciando a escolha estética e ética por temas aparentemente simples, mas carregados de significado. É nesse gesto cotidiano — escolher o afeto, a defesa do próximo — que ele encontra a resistência ao clima de hostilidade que cruza a cena global.
Gassmann reconhece uma dimensão de responsabilidade social em seu trabalho: embora não se veja como um “cantautore político”, acredita que os valores circulam além das letras. “Ser político” não passa necessariamente por versos militantes; trata-se de posicionar-se, de usar a visibilidade para apoiar os mais vulneráveis. É uma perspectiva que transforma a canção em uma lente pela qual se lê a sociedade, um pequeno roteiro que pode influenciar o imaginário coletivo.
Sobre a hipótese Eurovision, o artista responde com uma metáfora histórica: vê a música quase como o esporte, evocando o ideal olímpico em que competições podiam deter conflitos. Gassmann pondera que, mais do que a pergunta sobre se ele iria representar a Itália em caso de vitória, importa discutir as barreiras que se erguem entre povos. “A música é como o esporte e não deveriam existir barreiras”, ele observa, lembrando que impedir a participação de alguém é colocar mais muros — enquanto a arte tem potencial de conectar e narrar até mesmo histórias de amor.
O retorno ao palco de Sanremo também traz uma mudança de abordagem. Na terceira passagem, a performance ganha camadas de consciência e coragem estética: não se trata apenas de competir, mas de se posicionar em um palco que funciona como espelho do nosso tempo. A escolha de apresentar Naturale revela um desejo de ir “controcorrente”, não por oportunismo, mas por coerência com um projeto artístico que entende a canção como ato afetivo e político.
Com o lançamento do álbum Vita Vera Paradiso marcado para 10 de abril, Gassmann fecha um ciclo que mistura memória, formação e atenção às emergências sociais. A sua música, como um roteiro oculto da sociedade, convida o público a reframear prioridades: enquanto as notícias amplificam tensões, a prática do amor e da inclusão surge como um gesto de resistência.
Em tempos em que a cultura popular muitas vezes é reduzida a produtos de consumo rápido, a postura de Gassmann volta-se para a semiótica do viral com outra intenção — transformar reconhecimento em responsabilidade. No palco de Sanremo, o artista pretende então ser menos um fenômeno efêmero e mais um espelho, propondo que o som possa ser também terapia coletiva e gesto ético.






















