Negociações em Abu Dhabi e nova onda de ataques: equilíbrio frágil no tabuleiro
O Kremlin descreveu como “construtivas e ao mesmo tempo muito difíceis” as negociações realizadas em Abu Dhabi entre representantes da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos. O porta-voz presidencial Dmitry Peskov afirmou que o trabalho iniciado continuará, sublinhando a complexidade do processo. Em linguagem de diplomacia cartesiana, foi um movimento no tabuleiro que abriu linhas, mas não redesenhou fronteiras.
Enquanto isso, no terreno, as operações militares prosseguem com intensidade. Em Zaporizhia, um ataque aéreo russo atingiu uma residência unifamiliar, matando um casal — um homem de 49 anos e uma mulher de 48 — informou o governador da região, Ivan Fedorov. Segundo levantamento do Ukrinform, nas últimas 24 horas ocorreram 517 ataques por forças russas contra 32 assentamentos na região de Zaporizhzhia, resultando em pelo menos duas mortes e cinco feridos.
Na cidade de Odessa, um automóvel explodiu no distrito de Kyivskyi, provocando a morte de um jovem de 21 anos, identificado pela polícia como proprietário do veículo. Detalhes adicionais sobre o incidente não foram divulgados até o momento.
O Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia reportou 152 confrontos diretos com unidades russas, com os combates mais intensos concentrados no eixo de Pokrovsk. As forças russas, segundo os dados ucranianos, realizaram no dia anterior 80 ataques aéreos empregando 197 bombas aéreas guiadas. As estatísticas também indicam o uso massivo de armamentos não tripulados e de saturação: 6.235 drones kamikaze utilizados e 3.044 ataques contra áreas habitadas e posições ucranianas, incluindo 65 disparos com sistemas de lançamento múltiplo de foguetes (MLRS).
Os ataques foram registrados nas proximidades de diversos povoados: em Dnipropetrovsk (Zelena Dolyna, Levadne, Orly, Prosiana); em Zaporizhzhia (Rizdvianka, Barvinivka, Kopani, Vozdvyzhivka, Zaliznychne, Verkhnia Tersa, Huliaipilske, Hirke, Charivne, Lisne, Liubytske, Dolynka, Zelena Dibrova); e na região de Kherson (Vesele).
Do ponto de vista estratégico, há duas camadas a considerar. Primeiro, a declaração de Moscou sobre Abu Dhabi indica que, embora exista um canal de negociação, as condições para um avanço decisivo permanecem frágeis — alicerces diplomáticos ainda não consolidados. Segundo, a persistência e a escala dos ataques mostram uma intenção de manter pressão contínua sobre linhas logísticas e centros administrativos ucranianos, testando a resistência e forçando respostas que redesenham a tectônica de poder regional.
Como analista, observo que este é um momento de deslocamentos sutis: as negociações funcionam como uma abertura no tabuleiro, enquanto os raids procuram consolidar posições no terreno. A combinação indica que as partes exploram simultaneamente vias diplomáticas e militares, sem abdicar da vantagem posicional. A estabilidade futura dependerá da capacidade das potências externas em traduzir esses contatos em compromissos verificáveis, evitando que as hostilidades se tornem a nova cartografia permanente.
Reportagem preparada por Marco Severini, Espresso Italia — análise de geopolítica e estratégia internacional.






















