Por Marco Severini — Bruxelas. Depois de semanas de negociação tensa entre capitais, a presidência cipriota do Conselho da União Europeia conseguiu ontem (5 de fevereiro de 2026) costurar um texto de compromisso que desbloqueia o empréstimo de 90 bilhões de euros destinado à Ucrânia. O acordo representa um movimento decisivo no tabuleiro diplomático europeu: equilibra as exigências de rapidez no apoio militar de Kiev com a pressão política de preservar a preferência por fornecedores comunitários, conhecida pela insistência francesa no princípio Buy European.
O texto aprovado pelos 24 Estados participantes da cooperação reforçada prevê que a Ucrânia poderá adquirir equipamentos militares fora da União apenas “em caso de necessidade urgente e quando não existam produtos equivalentes na Europa”. A exceção é formulada de modo a oferecer flexibilidade operacional às forças ucranianas sem quebrar, em essência, os alicerces da política industrial e de segurança do bloco.
O financiamento do pacote segue o esquema concebido pelos líderes europeus em dezembro: empréstimos da UE nos mercados de capitais, garantidos pelo orçamento comunitário. A cláusula de reembolso mantém o condicionamento político essencial — Kiev deverá restituir os fundos apenas depois que a Rússia efetuar os pagamentos relativos aos danos de guerra. Diante da oposição declarada de Hungria, Eslováquia e República Tcheca, a opção pela via da cooperação reforçada permitiu avançar com 24 Estados membros engajados, sem paralisar o processo por unanimidade.
Do total de 90 bilhões, 30 bilhões serão destinados a apoio macroeconômico, operacionalizados via o instrumento da UE para a Ucrânia e sujeitos a um plano de financiamento preparado por Kiev e aprovado pelos Estados membros. Os restantes 60 bilhões visam fortalecer a capacidade industrial de defesa ucraniana e financiar a compra de meios militares. O Conselho sublinha a rigorosa condicionalidade: respeito pelo Estado de direito e combate à corrupção permanecem pré-requisitos para o desembolso.
O cerne da negociação foi exatamente a origem dos equipamentos militares. O acordo afirma que, em princípio, compras devem ocorrer junto a empresas da UE, da própria Ucrânia ou de países SEE-EFTA (Islândia, Liechtenstein e Noruega), mas prevê exceções pontuais. Trata-se de um arranjo que busca conciliar prontidão operacional e preservação da base industrial estratégica europeia — um ato de equilíbrio próprio das tectônicas de poder contemporâneas.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, saudou o avanço como um gesto de solidariedade firme com Kiev, a poucas semanas do quarto aniversário da invasão russa em grande escala. O próximo passo formal será a posição do Parlamento Europeu, que agora tem a palavra.
Em termos geopolíticos, este acordo representa mais que um pacote financeiro: é um redesenho de fronteiras invisíveis na governança de defesa europeia. Mantém-se a aparência de unidade e, ao mesmo tempo, instala mecanismos de flexibilidade operativa. Como em uma partida bem jogada de xadrez, a União move uma peça que preserva posições industriais e, simultaneamente, permite respostas rápidas no campo de batalha. Resta observar se os mecanismos de condicionalidade sobre o Estado de direito serão robustos o bastante para evitar erosões futuras dos alicerces democráticos que sustentam a ajuda.






















