Verão de 1971: um país ainda marcado pela violência política e pela vigilância estatal tornou-se cenário de um acontecimento que atravessaria gerações. No coração dessa virada histórica está o Festival de Avándaro, um episódio que, por ironia do destino, seria batizado pela imprensa e pela memória coletiva como a Woodstock mexicana. É essa história — de rebeldia jovem, ambição cultural e erro de cálculo transformado em lenda — que o diretor José Manuel Cravioto reconstrói no filme Autos, mota y rocanrol, apresentado na 55ª edição do IFFR (Festival de Cinema de Rotterdam).
Para entender a magnitude do evento é preciso voltar à conjuntura do México no início dos anos 1970. Após o massacre estudantil de 1968, o governo intensificou a repressão a qualquer expressão de dissidência. O clima de medo sobrevivia mesmo após eventos internacionais — os Mundiais não apagaram a tensão — e, curiosamente, o próprio automobilismo teve um ano desastroso naquele país: o Grande Prêmio do México sofreu um colapso que levou a Fórmula 1 a excluir o México de seu calendário por 15 anos. Neste cenário, dois amigos apaixonados por velocidade e música, Justino Compean e Eduardo “El Negro” López Negrete, sonharam com um projeto híbrido: uma corrida e um concerto que pudessem revitalizar o automobilismo e celebrar a cultura jovem.
O que começou como um evento local com patrocínios, transmissões previstas e até a agência McCann envolvida para comercializar espaços publicitários, saiu do controle em escala épica. Os organizadores esperavam 70 mil pessoas; compareceram cinco vezes esse número. As pistas previstas para a corrida foram invadidas por jovens e centenas de pilotos convocados ficaram parados, impossibilitados de competir. A imprensa sensacionalista reagiu com escárnio: os participantes foram retratados como uma orgia hippie, em tons de denúncia moralista.
O que restou, porém, foi um espetáculo musical de energia e improviso. No palco, permaneceram grupos que seriam lembrados na história do rock latino: Tequila, Tinta Blanca, Peace and Love, El Amor, Toncho Pilados, El Ritual, La División del Norte e Los Dug Dug’s, entre outros. O concerto — uma mistura de caos e comunhão — tornou-se símbolo de resistência cultural numa época em que a juventude buscava ar e voz.
O filme Autos, mota y rocanrol opta por uma estratégia narrativa inteligente: o mockumentary. Ao inserir os protagonistas fictícios em imagens de arquivo reais e usar recursos digitais para fazê-los interagir com o material de época, Cravioto cria uma espécie de edição possível da memória. “Filmamos em 16 mm e Super 8 para evocar a estética autêntica do período”, declarou o diretor, explicando a escolha técnica que sustenta o realismo do projeto. Essa integração lembra a técnica usada em Forrest Gump — onde o personagem caminha entre imagens históricas —, mas aqui a operação é menos divertimento e mais arqueologia afetiva, um reframe da história por meio da invenção documental.
No elenco, nomes contemporâneos como Emiliano Zurita e Alejandro Speitzer dão corpo aos dois protagonistas cuja iniciativa, pensada com ingenuidade, transformou-se em mito. Justino e El Negro — por mais que não desejassem o protagonismo — tornaram-se heróis involuntários para toda uma geração sedenta por liberdade. A exceção cultural que escapou ao controle estatal virou espelho do nosso tempo: não apenas um festival, mas um mapa das tensões sociais, das contradições entre consumo e contestação e da persistência do desejo de transformação.
Enquanto a imprensa da época criticava e estigmatizava, o público reconhecia ali um rito de passagem. O filme de Cravioto funciona, portanto, como memória ativa. Ao reutilizar fragmentos reais do Festival de Avándaro em diálogo com a ficção, ele questiona: como se constrói uma lenda? Quem escreve a história quando a experiência é coletiva e caótica? O mockumentary torna visível o trabalho de edição da memória: o que entra, o que fica de fora, qual cena é transformada em símbolo.
Apresentado no 55º IFFR, em um festival dirigido por Vanja Kaludjercic, o filme traça também uma ponte entre a história mexicana e o público européu contemporâneo, convidando à reflexão sobre a circulação de imagens e mitos. Em tempos em que o arquivo é constantemente remisturado, a obra lembra que o entretenimento não é mero escape; é uma forma de arquivo sensível, uma narrativa que endereça memórias e traumas coletivos.
Em um país onde episódios de repressão deixam cicatrizes visíveis, o eco cultural de Avándaro aponta para a persistência do espírito juvenil como fator de transformação. Ver Autos, mota y rocanrol hoje é reencontrar um pedaço da nossa história sob nova luz: uma dramaturgia que, como um espelho do nosso tempo, nos obriga a olhar para o passado com empatia e senso crítico. A escolha estética pelo 16 mm e Super 8, a montagem que mistura arquivo e atuação e a construção dos protagonistas como figuras acidentais de heroísmo compõem o roteiro oculto que explica por que certas noites se tornam lendas.
O festival — que nasceu como um apoio à corrida para reerguer o automobilismo mexicano — foi muito mais: tornou-se um rito de passagem cultural, um símbolo de resistência e um exemplo de como a arte e o erro podem criar memória. É esta ambivalência — entre espetáculo e política, entre publicidade e ruptura — que Cravioto coloca no centro de seu filme, convidando o espectador a perguntar-se não apenas “o que aconteceu”, mas “por que isso nos importa”.
No fim, Avándaro permanece como um caso de estudo sobre o poder das imagens e a semiótica do viral: um acontecimento que, mesmo nascido de uma soma de equívocos, funcionou como catalisador de identidade para uma geração inteira. Assistir a Autos, mota y rocanrol é, portanto, reencontrar esse roteiro coletivo, é testemunhar como dois amigos e um festival improvisado acabaram por traçar, sem querer, o mapa de uma rebeldia que insiste em atravessar o tempo.
Chiara Lombardi – para Espresso Italia






















