Por Chiara Lombardi — Em um giro que parece um espelho do nosso tempo, Valeria Golino aceita o desafio de desaparecer diante das câmeras para revelar, com precisão cirúrgica, a anatomia de uma manipulação. Em La gioia, o filme de Nicolangelo Gelormini que chega às salas a partir do dia 12, Golino surge transformada: nariz mais adunco, poucos fios de cabelo, óculos grandes — uma personagem envelhecida e quase imbruttita, cuja aparência ajuda a construir sua invisibilidade social e dramática.
O projeto é inspirado no caso real do assassinato de Gloria Rosboch (16 de janeiro de 2016), a professora piemontesa seduzida, enganada e abandonada em um despejo pelo seu ex-aluno. Gelormini transforma essa matéria jornalística em um roteiro que explora o vazio emocional e os equívocos afetivos que conduziram à tragédia. Para Golino, foi a primeira vez que uma maquiagem a transformou tão radicalmente: duas horas diárias em que a máscara não aprisiona, mas delineia uma personagem cuja vida foi silenciosamente corroída.
“É a primeira vez que, em um filme, isso me acontece”, conta a atriz, que admite ter sido ao mesmo tempo surpreendida e perturbada pela experiência. Ela lembra a famosa resposta de Anna Magnani ao maquiador — “deixe-me todas as rugas, levei uma vida para conquistá-las” — e contrapõe com elegância: Gioia não é uma cifra fácil, não se reduz a um traço estético. O trabalho de caracterização funciona como uma máscara que, paradoxalmente, revela.
A personagem, descrita por Golino, é uma mulher que nunca conheceu o amor verdadeiro e que, ao ser fisgada pela promessa de afeto, cai numa teia de falsas certezas. A atriz traça um retrato sem julgamentos: “Eu me mantenho livre do teorizar; o que nasce do excesso de teoria não pertence nem ao personagem nem à história.” Há lampejos infantis em Gioia, momentos de inocência inerme que anunciam o colapso.
O filme, aplaudido em Venezia, surpreendeu ao não entrar em competição — uma seleção que chegou a ofender a equipe, nas palavras da própria protagonista. Contudo, nas Giornate degli Autori foi recebido com carinho e atenção. Golino destaca o tom dual do longa: sombrio e luminoso ao mesmo tempo, tragédia e uma espécie de leveza trágica. Um elenco robusto reforça essa tensão: Jasmine Trinca, que interpreta a mulher frente a quem Gioia busca recuperar as economias de uma vida; o jovem Saul Nanni, descrito como o rapaz que desestabiliza; e Francesco Colella, “o diabo” no conjunto dramático.
Golino confidencia que, em um primeiro momento, cogitou dirigir o filme. “Eu teria dado outras prioridades; Nicola fez um filme mágico, mergulhado num romantismo negro. Eu talvez o tivesse tornado mais cru e perverso.” A observação confirma o quanto o projeto é um campo de escolhas estéticas: cada opção — da luz à maquiagem, do enquadramento à atuação contida — compõe o reframe da realidade.
No centro da narrativa permanece uma constatação inquietante: os personagens estão presos a si mesmos — vítimas do mal-entendido emocional, do tédio, do isolamento. Ninguém escapa ileso. Ao transformar o rosto de uma atriz conhecida em um retrato de invisibilidade social, La gioia nos convida a olhar o roteiro oculto das relações contemporâneas e a perguntar por que algumas vidas, cedo ou tarde, são deixadas à deriva.
O longa não oferece moralismos fáceis. Em vez disso, funciona como uma lente que amplia as fraturas íntimas e coletivas: um espelho cultural embebido de cinema, onde o horror do fato real ganha contornos de fábula urbana e de advertência. Golino empresta ao filme não só sua presença, mas uma interpretação que transforma a aparência em discurso — e a maquiagem, em memória palpável.






















