Por Marco Severini – A geopolítica do espaço sofre um movimento significativo no tabuleiro internacional: a SpaceX anunciou a suspensão temporária de todos os voos do seu foguete Falcon 9, colocando em risco o lançamento programado para 11 de fevereiro da missão Crew-12 rumo à ISS (Estação Espacial Internacional). O episódio é o mais recente capítulo de uma série de contratempos que expõem os alicerces frágeis da cooperação orbital e a complexa tectônica de poder que sustenta a presença humana em órbita.
Quatro astronautas estavam prontos para decolar na próxima semana: a americana Jessica Meir, o também americano Jack Hathaway, a francesa Sophie Adenot e o cosmonauta russo Andrey Fedyaev. Eles deveriam substituir a tripulação do Crew-11, que regressou à Terra em janeiro com um mês de antecedência após a primeira evacuação médica da história da estação. A NASA, preservando a confidencialidade clínica, não divulgou pormenores sobre o incidente de saúde que precipitou a retirada antecipada do time anterior.
Desde então, o laboratório orbital, que orbita a cerca de 400 km da superfície terrestre e completa 25 anos de atividade contínua, tem operado com um quadro mínimo de três pessoas. A antecipação por parte da NASA do voo do Crew-12 em poucos dias visava restaurar a capacidade operacional plena da estação, mas agora enfrenta a incerteza técnica imposta pela paralisação decidida pela SpaceX.
O bloqueio de operações do Falcon 9 foi anunciado enquanto engenheiros investigam um problema identificado durante procedimentos de pré-lançamento. A medida, embora prudente do ponto de vista de segurança, cria um atraso potencial que se soma a outros revezes recentes do setor espacial americano: a missão lunar tripulada da NASA foi adiada para 6 de março após a detecção de uma perda de combustível em testes finais.
Além das questões técnicas, a composição do Crew-12 carrega tensões políticas. Em novembro, um cosmonauta russo inicialmente previsto para a missão foi removido do elenco — segundo analistas, por suspeitas de atividade de espionagem — embora a NASA não tenha confirmado publicamente as razões. A agência espacial russa, Roscosmos, limitou-se a anunciar um realocamento. O nome que hoje integra a tripulação foi apontado por sua experiência prévia, incluindo participação na missão Crew-6 de 2023.
Uma vez a bordo, os quatro novos tripulantes conduzirão uma série de experimentos científicos, com ênfase nos efeitos da microgravidade sobre o corpo humano, durante uma estada prevista de aproximadamente oito meses. A comandante designada, Jessica Meir, traz uma formação em biologia marinha e experiência em ambientes extremos — um perfil que se alinha com o caráter experimental e resiliente das operações a bordo.
Escolto por um pano de fundo diplomático — a ISS permanece hoje um dos últimos poucos espaços de cooperação direta entre Ocidente e Rússia após a invasão da Ucrânia em 2022 — este incidente técnico expõe novamente como fragilidades técnicas podem rapidamente traduzir-se em tensões estratégicas. A estação, com dimensões comparáveis a um campo de futebol, está prevista para ser descomissionada em torno de 2030, abrindo espaço para um redesenho de fronteiras invisíveis no espaço baixo.
Do ponto de vista estratégico, a decisão da SpaceX é um movimento defensivo: proteger o conjunto do programa humano ante um risco potencial. Mas, em termos de jogo, cria uma lacuna operativa — um quadrado vazio no tabuleiro orbital — que exige respostas coordenadas entre agências, parceiros comerciais e governos. O desenlace das investigações técnicas e a decisão sobre a nova data de lançamento do Crew-12 serão, nos próximos dias, peças decisivas para a manutenção da continuidade científica e diplomática em órbita.






















