Por Marco Severini — Em um movimento que combina administração técnica e cálculo estratégico, o Ministério do Meio Ambiente, Água e Agricultura da Arábia Saudita apresentou um novo instrumento normativo e digital: o passaporte digital para camelos. Inaugurado pelo vice‑ministro Mansour Al‑Mushaiti, o projeto integra o programa nacional de desenvolvimento da produção animal e da pesca e pretende criar um quadro único para a gestão de dados sanitários e genéticos, alinhado à Vision 2030.
O sistema funcionará como um documento de identidade completo, associado a um microchip. Cada registro reunirá informações detalhadas — nome do animal, data e local de nascimento, raça, sexo, coloração e fotografias laterais para verificação morfológica — além de um registro vacinal certificado por médicos veterinários. Essa base de dados pretende assegurar a rastreabilidade dos cuidados sanitários e aumentar a transparência nas transações comerciais e em leilões, locais e internacionais.
Em números: com mais de 2,1 milhões de cabeças registradas, o setor camelífero saudita é avaliado em cerca de 11,3 bilhões de euros (aproximadamente 50 bilhões de riyais). O governo estima que a documentação padronizada permitirá valorizar animais com pedigree comprovado e melhor estado de saúde, beneficiando cerca de 80.000 proprietários identificados no país e simplificando o transporte e as transferências de posse oficiais.
Do ponto de vista operacional, trata‑se de um esforço para transformar informação bruta em alavanca de política pública. A consolidação de dados facilita a programação estratégica da distribuição do rebanho, o desenho de programas de melhoramento genético e a otimização dos serviços veterinários. Em termos de mercado, a previsibilidade e a confiabilidade das certidões eletrônicas tendem a elevadar os preços e a competitividade em certames internacionais.
No plano simbólico e cultural, a iniciativa ganha relevo num momento em que o país valorizou a conexão histórica com o animal, tendo declarado 2024 como “Ano do Camelo”. O aparato digital, portanto, não é apenas técnico: é parte de um projeto de afirmação identitária e econômica, que transforma um ativo tradicional em um vetor moderno de desenvolvimento.
Como analista, analiso este lançamento como um movimento decisivo no tabuleiro da governança: centralizar dados é ampliar instrumentos de política, mas também introduz novas fragilidades. A criação de um repositório nacional levanta questões sobre interoperabilidade internacional, padrões de certificação para exportação e segurança das bases de dados. Há, assim, oportunidades claras de incremento de valor e eficiência — e riscos vinculados à dependência tecnológica e à gestão dos dados.
Em suma, o passaporte digital para camelos é simultaneamente um avanço técnico e um redimensionamento da influência estatal sobre um setor estratégico. Nas linhas finas dessa tectônica de poder, a Arábia Saudita modela alicerces para políticas agropecuárias mais sofisticadas, enquanto redesenha as fronteiras invisíveis do comércio animal e da diplomacia regulatória regional.






















