Por Giuseppe Borgo — A ruptura política entre Roberto Vannacci e a Lega deixou o nível pessoal e entrou no campo parlamentar, transformando-se numa disputa que toca diretamente os alicerces do posicionamento internacional do governo. O foco do conflito é um emendamento ao Decreto Ucraina, apresentado pelos deputados leghistas Edoardo Ziello e Rossano Sasso, que pede a suspensão imediata do envio de armas a Kiev.
O gesto legislativo foi rapidamente utilizado por Vannacci como novo instrumento de pressão: o eurodeputado comunicou oficialmente a separação do partido e declarou apoio ao texto, sinalizando que pretende transferir para o parlamento a batalha que perdeu internamente na via Bellerio. Apesar de ter sido destituído do posto de vicesegretário, Vannacci garante que não abrirá mão do assento em Bruxelas — ‘os votos são meus’, tem reclamado nas redes — e quer transformar essa controvérsia num projeto político alternativo.
O emendamento atua como uma manobra de cerco: ataca o flanco mais sensível da Lega, historicamente dividida entre a fidelidade à linha atlantista do governo e os descontentes internos contrários ao apoio bélico a Zelensky. Ziello e Sasso, que já votaram contra a resolução da maioria em 15 de janeiro, parecem preparados para convergir para a nova formação anunciada por Vannacci, batizada provisoriamente de Futuro Nazionale, onde também é esperado o ex-meloniano Emanuele Pozzolo.
Na sede do partido a reação foi de contenção e reprovação. O chefe do grupo na Câmara, Riccardo Molinari, chamou os colegas à disciplina, qualificando como ‘não correto’ apresentar propostas contrárias à linha majoritária, ao mesmo tempo em que procurou evitar expulsões e convidou os dissidentes a permanecerem no grupo parlamentar. A direção tenta minimizar o episódio, tratando-o como provocação isolada que não colocaria em risco a coalizão, sobretudo num momento sensível das negociações internacionais.
No entanto, a tensão política permanece real. Se o governo optar por não obter confiança sobre o decreto em votação na próxima semana em Montecitorio, o emendamento pode desnudar fissuras no centro-direita e, ironicamente, oferecer terreno comum às oposições — em particular 5 Stelle e AVS — que já se mostraram contrárias ao envio de armamento.
O ataque também alcança um patamar ético e pessoal. Vannacci tem sido instado a renunciar ao assento no Parlamento Europeu; ele revida acusando a Liderança de aplicar dois pesos e duas medidas perante mudanças de grupo por outros parlamentares. A resposta mais contundente veio do presidente do Friuli-Venezia Giulia, Massimiliano Fedriga, que não só qualificou a ação de Vannacci como um ‘tradimento organizado’, como afirmou que vai celebrar simbolicamente a saída com uma garrafa de Ribolla Gialla, gesto que revela a profundidade da cisão entre os dirigentes leghistas.
Estamos diante de uma fase em que o peso da caneta e a arquitetura do voto podem redefinir as pontes entre a política nacional e a política externa. Esta emenda transforma-se num pequeno porém potente mecanismo capaz de derrubar barreiras burocráticas ou, ao contrário, de abrir fraturas na construção do consenso político. A centralidade do episódio é clara: trata-se de uma disputa cujo impacto será medido não apenas em termos de alianças partidárias, mas na vida prática das escolhas de Estado e das responsabilidades que o governo carrega no cenário internacional.






















