Em uma plateia que cheirava a espresso e curiosidade, Milanese e especialistas sentaram-se para julgar o hábito nacional: o café. O veredito, proferido ao fim de um debate encenado pelo Ordine dei Medici de Milão, trouxe alívio temperado por cautela: o caffè foi assolto, mas com limitação prática — não mais do que 3 tazzine ao dia para a pessoa saudável. Para alguns grupos, porém, as luzes de atenção ficam acesas.
O “julgamento” contou com a presença do presidente do Tribunal de Milão, Fabio Roia, do público ministero Tiziana Siciliano, das advogadas de defesa Ilaria Li Vigni e Giorgia Andreis, do perito e medico legale Umberto Genovese, além de vários testemunhos e especialistas. No banco das testemunhas, o cardiologista Stefano Carugo apontou que o que parece um gesto rotineiro pode, em pessoas vulneráveis, agravar hipertensão, insônia e palpitações.
Ao proferir a decisão, a Corte aplicou o artigo 530, comma 2, do Código de Processo Penale, entendendo que a responsabilidade não foi demonstrada além de toda dúvida razoável. Foi igualmente rejeitada a acusação com base no artigo 444 do Código Penale — a imputação de perigo para a saúde pública. Ainda assim, os magistrados sublinharam que a leitura do tema deve ser articulada e não simplificada.
Entre as observações mais relevantes está a distinção clara entre cafeína e café como bebida: não são sinônimos no que toca risco e benefício. Em consonância com parâmetros de linha guia, a Corte orientou uma limite orientativo de até 3 xícaras de café italiano por dia para adultos saudáveis. Para quem sofre de doenças cardiovasculares, distúrbios neurológicos ou problemas do sono, a recomendação é de cautela e avaliação individual.
Foi também enfático o posicionamento sobre os mais jovens: crianças e adolescentes recebem um não categórico quanto ao consumo. Gestantes e pessoas com questões cardíacas devem moderar ou evitar, conforme orientação médica.
Essa forma teatral de levar à praça pública temas alimentares já é tradição do Ordine di Milano: em anos anteriores, leite, carne vermelha, açúcar, sal e vinho já foram submetidos ao mesmo rito de debate. “Queremos oferecer instrumentos ao público para que faça sua própria avaliação”, disse Roberto Carlo Rossi, presidente do Ordine de Milão, lembrando que o objetivo é abrir o diálogo entre cidadãos e comunidade médica.
Como observador das rotinas que moldam o bem-estar à italiana, vejo nesta sentença uma metáfora: o café é parte da respiração da cidade e da colheita de hábitos que nos definem. Como qualquer substância psicoativa — escreveu a acusação — merece respeito e limites. Na prática, a recomendação é simples e humana: permita-se o prazer do espresso, mas respeite os ciclos do seu corpo e, quando necessário, peça conselho ao seu médico. Assim a xícara se mantém companheira, e não desafio, ao ritmo do seu dia.






















