Imagens de satélite e testemunhos locais confirmam a destruição deliberada de trechos do cemitério de al-Tuffah, em Gaza City, onde se localizaram sepulturas de combatentes das Primeira Guerra Mundial e da Segunda Guerra Mundial. O padrão de danos — sulcos extensos, montes de areia e faixas de terreno revolvido — é compatível com o emprego continuado de bulldozer e outros meios pesados.
As evidências indicam que filas inteiras de túmulos foram removidas e que o solo foi profundamente revirado em setores bem definidos do complexo funerário. O confronto temporal de imagens sugere que as operações ocorreram ao longo da primavera e do verão de 2025: zonas antes intactas aparecem depois recortadas por escavações que criaram verdadeiras barreiras de areia através do recinto.
Um ex-custode do local, residente nas imediações, descreveu dois momentos distintos de intervenção. No primeiro, máquinas atuaram externamente às muralhas, removendo a vegetação; no segundo, houve penetração no perímetro com destruição de um setor que abrigava monumentos, bancos para visitantes e sepulturas de combatentes aliados. As áreas atingidas permanecem desprovidas de vegetação, enquanto a vegetação cresce novamente nas seções preservadas.
As unidades israelenses (IDF) justificaram as ações afirmando que medidas operacionais foram necessárias para neutralizar ameaças relatadas naquela proximidade. Ainda assim, os danos verificam-se em um cemitério com milhares de sepulturas — entre elas, mais de cem túmulos de militares da Segunda Guerra Mundial, em sua maioria australianos, além de britânicos e poloneses — e vários setores referentes à Primeira Guerra Mundial que também sofreram avarias.
Este episódio insere-se num quadro mais amplo de escalada: conflitos, denúncias de genocídio em Gaza, e relatos de apropriação de terras e violência que persistem mesmo após cessar-fogos pontuais, aprofundando uma crise humanitária já extrema. A destruição de cemitérios e memoriais é sempre um indicador simbólico de deslocamento moral e de erosão dos alicerces da diplomacia — um movimento decisivo no tabuleiro que redefine fronteiras de fato e corrói canais de reconciliação.
Do ponto de vista histórico e jurídico, a ofensiva contra cemitérios militares e tumbas de combatentes aliados levanta questões sobre proteção de bens culturais e memoriais de guerra, territórios de memória que transcendem disputas nacionais imediatas. As imagens que documentam a remoção de sepulturas e a criação de montes de areia têm o caráter de prova tangível: não se trata apenas de danos colaterais, mas de operações coerentes e direcionadas em setores concretos do cemitério.
Enquanto analista, observo a operação como um movimento que visa redesenhar, na prática, espaços de convivência e memória — uma tectônica de poder que compacta controle territorial e simbólico. As implicações para futuros acordos e para a restauração de confiança entre comunidades são profundas: quando se danificam sepulturas, danifica-se também a possibilidade de memória partilhada.
Em termos práticos, resta fundamental a preservação e a catalogação das evidências por organizações de preservação do patrimônio, por embaixadas dos países cujos soldados ali jazem, e por agências internacionais. Sem essa preservação, os fatos perdem-se no terreno revolvido da guerra e do tempo, e os alicerces frágeis da diplomacia tornam-se mais difíceis de reconstruir.
Conclusão: a destruição do cemitério de al-Tuffah não é apenas uma ferida local; é um indicador estratégico — emblema de um movimento no tabuleiro de poder que, se não contido pelas normas internacionais e pela diligência das instituições de preservação, aprofundará a cisão e tornará mais árdua a reconstrução da paz.






















