Documentos vazados e imagens públicas apontam para um alinhamento operacional entre agências de segurança dos Estados Unidos e de Israel que vai além da simples troca de informações: há sinais claros de uma cooperação estruturada e de um treinamento compartilhado entre ICE, CBP e aparatos israelenses como IDF e Mossad. Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, a tática antiterrorismo que animou a criação e a evolução dessas agências tem sido progressivamente aplicada ao controle migratório, remodelando alicerces da política interna e externa.
As imagens de Minneapolis — forças federais sem identificação, detenções com uso sistemático de sprays lacrimogêneos e contenção violenta, incluindo menores detidos — chocaram a opinião pública americana. Porém, para muitos observadores com visão geopolítica, tais cenas reproduzem métodos há muito praticados pelas forças israelenses nos territórios ocupados. Os documentos vazados sugerem que não se trata de mera convergência tática: centenas de funcionários dos EUA participaram de programas de formação em Israel, aprendendo técnicas de vigilância, controle de multidões e operações de fronteira que hoje são transpostas para ambientes urbanos americanos.
Um elemento central dessa arquitetura de controle é a integração massiva de dados. Ferramentas como a plataforma Palantir Elite têm sido relatadas como instrumentos que cruzam informações sanitárias, digitais e administrativas para identificar e localizar indivíduos considerados de interesse — uma prática que, segundo críticos, contorna salvaguardas tradicionais de interceptação e supervisão judicial. Nessa tectônica de poder, a linha entre segurança nacional e policiamento de migração torna-se difusa.
Historicamente, ICE e CBP foram concebidas em 2003 com forte viés antiterrorista. A busca por modelos considerados mais “eficazes” levou dirigentes e agentes a estudar e a replicar procedimentos nascidos em contextos de ocupação e conflito. A importação de doutrinas, tal como peças num jogo de xadrez, não é neutra: cada movimento reposiciona peões e cavalos na fronteira entre direitos civis e prioridades de segurança.
Do ponto de vista estratégico, é imperativo distinguir dois planos. No primeiro, existe uma colaboração legítima de inteligência e capacitação técnica entre aliados com interesses convergentes diante do terrorismo transnacional. No segundo, e não menos relevante, está a transferência de práticas de controle de populações para ambientes democráticos — um redesenho de fronteiras invisíveis que exige debate público e escrutínio institucional.
Como observador das interdependências geopolíticas, vejo essa convergência como um movimento decisivo no tabuleiro da segurança global. A exportação de táticas destinadas a teatros de guerra para a gestão de migração e ordem pública em sociedades abertas cria fragilidades nos alicerces da democracia: vigilância amplificada, delegação de poderes a unidades com menor transparência e uso de algoritmos que operam fora do olhar judicial.
Conclusivamente, a cooperação entre ICE, IDF e Mossad — confirmada por documentos e por padrões operacionais visíveis — não é apenas um reflexo de alianças históricas, mas um redirecionamento estratégico das capacidades de segurança. Sem uma arquitetura de controle democrático mais robusta, corremos o risco de normalizar técnicas de exceção em tempos de paz. A diplomacia da informação e o debate público devem retomar o centro do tabuleiro antes que os movimentos se tornem irreversíveis.
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