Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no Corno de África e no Mar Vermelho, autoridades de Somaliland e de Israel conduziram um encontro diplomático que se aproxima da assinatura de um acordo amplo de cooperação. Segundo comunicados locais e vozes oficiais, o pacto prevê a concessão por parte de Israel de ajuda econômica e apoio militar, enquanto o lado somalilandês ofereceria acesso a recursos minerais estratégicos — notadamente o lítio — e facilidades de aproveitamento do Golfo de Aden.
O presidente do autoproclamado estado, Abdirahman Mohamed Abdullahi, declarou estar “100% confiante” na conclusão de um parceria que combina investimentos, transferência de tecnologia e projetos de desenvolvimento econômico com a exploração das vastas jazidas minerais, bem como com o potencial energético e pesqueiro do território. Hargeisa, capital administrativa do território que se separou da Somália em 1991 sem reconhecimento internacional amplo, aposta nessa aproximação para romper o isolamento diplomático.
Em Jerusalém, lideranças como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro das Relações Exteriores Gideon Saar manifestaram publicamente apoio ao estreitamento dos laços, culminando na recente visita do chanceler a Hargeisa. Do ponto de vista israelense, trata-se de ampliar presenças e parcerias fora do eixo tradicional do Levante, com ênfase em tecnologia agrícola, saúde, segurança e inovação.
Entretanto, sob a retórica do “comércio” e do “desenvolvimento” emergem sombras estratégicas de relevo. Fontes e analistas regionais têm levantado hipóteses — ainda não confirmadas de modo independente — sobre desdobramentos mais sensíveis, incluindo a possibilidade de uso de instalações costeiras no Golfo de Aden para objetivos de segurança marítima e projeção de poder contra grupos como os Houthi, ou até alegações, agora circulantes nas mídias locais, sobre planos migratórios envolvendo palestinos. Tais narrativas alimentam temores geopolíticos e reacendem debates sobre soberania e precedentes de reconhecimento.
Abdullahi afirmou que a cooperação militar futura é desejada, mas negou que tenham sido acertadas bases militares israelenses em solo somalilandês — uma negação que, no entanto, contrasta com reportagens e comentários de observadores que interpretam o reconhecimento formal por Tel Aviv como um movimento com forte componente estratégico. O contexto não é neutro: a corrida por recursos críticos como o lítio e o controle de rotas marítimas vitais desenham um tabuleiro onde atores regionais e extra-regionais reavaliam posições.
Para o Corno de África, a entrada formal de Israel no jogo do reconhecimento altera alicerces diplomáticos frágeis. Somália, vizinhos do Golfo e potências do Oriente Médio — incluindo Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — ficam obrigados a recalibrar suas estratégias. O risco imediato é a intensificação de tensões locais e a abertura de precedentes que outros movimentos de secessão poderão citar como argumento para sua própria legitimação.
Do ponto de vista estratégico, a negociação entre Hargeisa e Jerusalém deve ser lida como um movimento de xadrez cuidadoso: cada concessão econômica e cada acordo de segurança são peças que alteram o equilíbrio regional. A longo prazo, a sustentabilidade dessa aliança dependerá da capacidade de mitigar reações regionais, de garantir transparência sobre modalidades de cooperação militar e de garantir que a exploração dos recursos beneficie, de fato, a população local sem agravar rivalidades.






















