Documentos do FBI incorporados aos chamados Epstein files reacenderam um roteiro de sombras e influência que mistura inteligência, poder econômico e diplomacia privada. No centro desse roteiro está Jeffrey Epstein, o financista cuja morte na prisão, oficialmente tratada como suicídio, continua a gerar dúvidas e investigações. Um memorando arquivado como FD-1023, datado de 19 de outubro de 2020, relata que Epstein teria sido cooptado pelo Mossad e que mantinha laços com serviços de inteligência norte-americanos e aliados.
O documento é baseado em declarações de uma fonte confidencial do FBI e contém referências que, embora ainda não totalmente corroboradas, merecem atenção pela sua gravidade institucional. Segundo o relatório, Alan Dershowitz — advogado de Donald Trump e professor de Harvard frequentemente identificado como figura do sionismo americano — disse ao então procurador Alex Acosta que Epstein pertenceria aos serviços de inteligência estadunidenses e de aliados.
Complementando essas alegações, o ex-analista da CIA John Kiriakou voltou a afirmar, em entrevistas e no podcast The Diary of a CEO, que Epstein teria funcionado como um ‘agente de acesso’ do Mossad. A tática descrita por Kiriakou consiste em uso de riqueza, propriedade de ilhas, jatos privados e orgias envolvendo menores para acumular material de chantagem sobre membros das elites globais — uma arma política mais do que pessoal.
O memo FD-1023 afirma também que Epstein teria tido contatos dentro de círculos sionistas em Israel e que teria recebido algum tipo de ‘treinamento’ ou orientação sob a influência do ex-primeiro ministro Ehud Barak. O documento registra a visão política de Barak sobre o mapa regional, colocando Arábia Saudita, Israel e Emirados Árabes Unidos em um eixo oposto a Qatar, Turquia, Irã e Síria. No entendimento da fonte, essa geometria de alianças teria criado oportunidades para operações de influência mútua entre serviços.
Entre os nomes citados aparece ainda Jared Kushner, cunhado de Trump, identificado no memo como um ponto de interesse no jogo de interlocuções entre Washington e Tel Aviv. A presença desse nome ilustra como o caso transborda o escopo de escândalo privado e adentra o campo da política externa e da cartografia do poder.
Importante sublinhar o caráter probatório e exploratório destas alegações. Os documentos do Epstein files foram divulgados no âmbito de investigações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e muitas das afirmações nelas contidas dependem de confirmação adicional. Ainda assim, o conjunto cria um mosaico que aponta para um modelo de operação onde a inteligência e o acesso a círculos de poder se encontram com crimes sexuais e práticas de chantagem.
Do ponto de vista geopolítico, aceitar a hipótese de que agentes aliados usaram um agente de acesso para influenciar decisores representa um movimento decisivo no tabuleiro. Revela alicerces frágeis da diplomacia informal e um redesenho de fronteiras invisíveis entre interesse público e privado. Para as instituições democráticas americanas e para as relações transatlânticas, as implicações vão da erosão de confiança até a necessidade de maior transparência na supervisão de ações de inteligência.
Como diplomata da informação, concluo que é imprescindível uma investigação independente e rigorosa que esclareça quais elementos são fato e quais continuam sendo conjectura. A tectônica de poder que estes documentos sugerem pede prudência analítica, porque números, nomes e encontros no tabuleiro estratégico podem produzir consequências duradouras para a governança e para a arquitetura de segurança entre aliados.
Resumo dos pontos principais
- Documento FD-1023 do FBI datado de 19-10-2020 afirma que Jeffrey Epstein teria sido cooptado pelo Mossad.
- Alan Dershowitz é citado como alegadamente tendo informado Alex Acosta sobre ligações de Epstein com serviços de inteligência.
- John Kiriakou reiterou em podcast que Epstein atuou como ‘agente de acesso’ para recolher material de chantagem.
- O memo cita conexões com Ehud Barak e menciona interesses de figuras como Jared Kushner.
- As alegações ainda carecem de confirmação plena; o caso exige investigações adicionais e supervisão institucional.






















