Ao bater da meia-noite, caiu o último grande argine jurídico que regulava os arsenais estratégicos entre a Rússia e os Estados Unidos. A expiração do tratado que durante décadas limitou ogivas e transparência marca não apenas um rito simbólico — o fim de uma era de regras partilhadas nascidas no pós‑Guerra Fria — mas um deslocamento substancial na tectônica de poder global: abre-se espaço para uma competição menos transparente e potencialmente mais instável.
De Moscou, Vladimir Putin justificou a decisão como resposta às provocações e ao acúmulo de tensões ocidentais, mas deixou um canal diplomático formalmente aberto para negociações futuras. Essa ambiguidade estratégica combina firmeza com prudência: de um lado, a mensagem é clara sobre a recusa em permanecer vinculado a limitações que, segundo o Kremlin, não refletem mais o contexto; de outro, evita‑se a ruptura definitiva do diálogo, conservando margem de manobra no tabuleiro.
Paralelamente, observa‑se um fortalecimento da convergência entre Moscou e Pequim. O reaproximação entre Putin e Xi Jinping ultrapassa a mera cooperação econômica e energética: assume feições cada vez mais estratégicas. A aliança tácita entre Rússia e China desenha um novo eixo de influência que contesta o modelo institucional centrado em Washington e redesenha, de modo mais sutil, as fronteiras da ordem mundial.
A China, terceira potência nuclear em projeção global, acompanha atentamente a evolução do confronto russo‑estadunidense enquanto moderniza seu arsenal num ritmo controlado e deliberado. Para Pequim, a dinâmica atual oferece tanto risco quanto oportunidade: integrar‑se a um regime de controle exigiria visibilidade e compromissos que podem limitar a margem estratégica num momento de afirmação internacional.
Do lado americano, a administração de Donald Trump tem privilegiado acordos bilaterais e pressões negociadas fora dos esquemas multilaterais tradicionais, sustentando que um novo arranjo de estabilidade deveria obrigatoriamente incluir a China. A exigência de um terceiro ator torna o problema geometricamente mais complexo: o controle de armas, historicamente concebido em termos bipolares, enfrenta agora o desafio de um jogo trilateral.
O resultado imediato é uma fase de transição carregada de incertezas. Sem um tratado plenamente operacional, aumentam os riscos de mal‑entendidos, erros de cálculo e ciclos de ação‑reação. O controle de armamentos foi sempre — para além dos números — um instrumento de previsibilidade e confiança mínima; sua erosão recoloca a lógica da deterrência pura como fundamento da estabilidade, dependente mais do receio mútuo do que de regras claras.
Na Europa, a reação tem sido essencialmente de observação prudente. Bruxelas e as capitais do continente avaliam as implicações para a sua segurança coletiva e para a dissuasão nuclear estendida, medindo o impacto — direto e indireto — sobre teatros regionais como a Ucrânia, o Cáucaso e o Mediterrâneo oriental. A velha arquitetura de segurança europeia — seus alicerces e contrafortes — mostra‑se agora mais frágil perante um cenário onde as normas internacionais perdem peso.
Num panorama estratégico assim redesenhado, três consequências merecem destaque: primeiro, a aceleração possível da modernização de arsenais e do desenvolvimento de capacidades auxiliares; segundo, a necessidade imperiosa de canais de comunicação militares e diplomáticos para mitigar crises; terceiro, a urgência de repensar mecanismos inclusivos de verificação que possam abarcar atores além do par Washington‑Moscou.
Como analista, vejo este momento como um movimento decisivo no grande tabuleiro onde as peças da geopolítica se reposicionam. A arquitetura das relações internacionais precisa de renovação — não apenas de retórica — para evitar que a erosão das regras transforme a dissuasão numa corrida obscura de incertezas. A estabilidade futura dependerá da habilidade diplomática em reconstruir confiança sobre novos fundamentos, evitando que o mundo fique refém de um equilíbrio cada vez mais precário.






















