Por Giuseppe Borgo — Em pronunciamento no Senado sobre a catástrofe em Niscemi, o ministro da Proteção Civil e das Políticas do Mar, Nello Musumeci, qualificou o atual quadro como um problema estrutural e não apenas uma emergência pontual. A enorme fratura que atravessa a área atingida já alcança cerca de 4 quilômetros, e as previsões apontam para um retrocesso progressivo em direção ao centro histórico do município.
Musumeci trouxe ao plenário dados do Ispra (2024) que mostram uma realidade preocupante: «aproximadamente nove municípios em cada dez na ilha apresentam áreas de alto risco de deslizamentos». O ministro lembrou ainda que o problema não é exclusivo da Sicília — segundo especialistas, mais de 94% dos municípios italianos estão expostos a riscos hidrológicos, a avalanches ou à erosão costeira.
«O fenômeno não está estacionado», disse o ministro, explicando que a dinâmica da fratura em Niscemi é de evolução retrograda, “em direção ao monte, portanto em direção ao centro habitado”. Por isso, alertou para a necessidade de medidas urgentes, tanto de proteção quanto de reassentamento das famílias que tiveram de abandonar definitivamente suas casas. Ao mesmo tempo, Musumeci enfatizou que a definição de soluções passa pelas autoridades locais: «os prefeitos são a primeira autoridade de proteção civil; a responsabilidade pela planificação e vigilância urbanística é municipal».
Como observador crítico das decisões que moldam a vida cotidiana das comunidades, ressalto que esta é uma chamada para reconstruirmos os alicerces da gestão territorial com prioridade. A fragilidade atual do solo é, em grande parte, sintoma de um tecido de políticas públicas que abriu fissuras ao longo dos anos — uma construção de direitos que precisa ser reparada com projeto técnico e consistência orçamentária.
Na mesma audiência foi reaberta a controvérsia em torno do MUOS, a base militar dos Estados Unidos em Niscemi já acusada, há cerca de dez anos, de provocar contaminação. Um documento exclusivo revela que, em 15 de setembro de 2025, a Região autorizou intervenções de «manutenção extraordinária» no local com o objetivo declarado de conter processos erosivos. A presença dessa infraestrutura no debate coloca questões sobre o impacto acumulado em solo e população ao longo da última década.
Musumeci, que presidiu a Região Siciliana entre 2017 e 2022, reagiu às críticas e às «vozes de oportunismo» que, nas suas palavras, exploram tragédias. Defendeu seu legado administrativo: «sob a minha Presidência, a Região siciliana utilizou 90,7% dos 540 milhões disponíveis», contrapondo a narrativa que aponta apenas para falhas recentes.
O desafio agora é prático e imediato: combinar a urgência de proteção às famílias afetadas com uma estratégia de longo prazo para estabilizar encostas, revisar instrumentos de ordenamento do território e fortalecer a ponte entre ciência, governo e cidadãos. Sem essa ponte — e sem um projeto que trate o território como infraestrutura social — continuaremos a assistir ao desgaste dos direitos que deveriam proteger vidas e bens.






















