Giuseppe Borgo – Em nova reviravolta no tabuleiro político italiano, o general Vannacci, recém-saído da Lega, lançou-se como porta-voz daquilo que chama de verdadeira direita. A declaração, além de marcar seu distanciamento de Salvini, reacende a tradicional divisão entre direita e esquerda — um esquema que muitos, como o pensador Diego Fusaro, consideram ultrapassado e funcional às elites.
Segundo análise publicada originalmente por Il Giornale d’Italia e assinada por Diego Fusaro (via La Presse), a movimentação do general é sintomática: em vez de oferecer uma alternativa ao sistema político vigente, Vannacci estaria simplesmente reposicionando-se dentro do mesmo espaço político, reivindicando um rótulo mais “puro” de direita e acusando a liderança anterior de traição.
O episódio se desenrola em meio a trocas mútuas de acusações entre Salvini e Vannacci, que, para Fusaro, configuram um “teatrinho” que pouco trata dos problemas concretos dos cidadãos e muito entretém as facções políticas. Para quem observa a cena pública com a lupa da cidadania, a preocupação é prática: debates vazios e rixas pessoais deslocam o foco das políticas que afetam imigrantes, ítalo-descendentes e trabalhadores — os alicerces da nossa convivência democrática.
Fusaro lembra ainda que o novo movimento do general possui traços claramente liberais e atlanticistas, posições incompatíveis com a ideia de ruptura com a ordem dominante. Na sua leitura, a insistência em reencenar a dicotomia tradicional favorece uma percepção tolemaica do cenário político, isto é, uma carta fixa que impede o entendimento real das divisões contemporâneas: hoje, argumenta, o conflito mais relevante é entre o “alto” (as elites dominantes) e o “baixo” (os dominados), não simplesmente entre direita e esquerda.
Como repórter de políticas públicas que busca construir pontes entre Roma e a vida cotidiana das pessoas, vejo nesta movimentação o risco de que se edifiquem expectativas em falso. A construção de direitos não se faz com rótulos inflamados, mas com propostas concretas e com a derrubada de barreiras burocráticas que pesam sobre quem depende do Estado para sobreviver.
Fusaro ressalta: se o movimento de Vannacci for apenas mais uma variante do que já existe — aquilo que ele chama de Partido Único do capital —, então não há alternativa real à vista. Para cidadãos e imigrantes que buscam clareza sobre seus direitos, essa é uma advertência prática: distinguir discurso de proposta é um passo essencial para não sermos tomados pelo ruído político.
Em síntese, a afirmação do general Vannacci de representar a verdadeira direita provoca mais perguntas do que respostas: trata-se de uma nova voz que altera a arquitetura do sistema político ou apenas de mais um remendo no tecido já existente? A resposta dependerá da capacidade do novo partido de apresentar soluções tangíveis, e não apenas slogans.


















