Mahmud Abbas (conhecido como Abu Mazen), presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e líder do movimento nacional palestino, decretou a realização das primeiras eleições diretas para o Conselho Nacional Palestino (PNC), o parlamento da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), para o dia 1º de novembro de 2026. A informação foi divulgada pela agência oficial palestina Wafa e replicada por fontes internacionais.
Na declaração presidencial, enfatizou-se que se trata de um marco histórico: pela primeira vez os membros do PNC serão escolhidos pela via do voto popular direto, numa convocatória que abrange tanto os palestinos que residem no território quanto aqueles que vivem na diáspora. O decreto determina que o pleito ocorrerá “onde for possível, tanto dentro quanto fora da Palestina, para garantir a mais ampla participação possível do povo palestino, onde quer que resida”.
Do ponto de vista institucional, o Conselho Nacional Palestino funciona como o órgão legislativo da OLP, criado em 1964 para representar os palestinos em terra e no exterior, e possui, entre suas competências, a eleição do Comitê Executivo que orienta a organização entre as sessões plenas. Historicamente, porém, o PNC teve atividade irregular: sua última sessão relevante ocorreu em 2018, e as últimas composições do corpo não resultaram de sufrágio direto amplo desde 2006.
Como voz que observa a configuração estratégica da região, interpreto essa convocação como um movimento calculado no tabuleiro político palestino: um esforço de recomposição da legitimidade institucional e de recuperação de alicerces democráticos que possam reforçar a capacidade de representação internacional da liderança palestina. A abertura ao voto da diáspora redesenha, ainda que parcialmente, as fronteiras invisíveis da influência política.
Mahmud Abbas, nascido em Safad em 26 de março de 1935, ocupa a presidência da Autoridade desde 2005 e preside também a OLP. Aos 90 anos, sua decisão sinaliza um intento de consolidar instituições capazes de oferecer uma alternativa política ordenada à fragmentação do poder nas diferentes esferas da sociedade palestina.
No anúncio, Abu Mazen criticou a atuação do Hamas na Faixa de Gaza, qualificando a organização como um “obstáculo à paz” e exigindo a entrega de armamentos, ao afirmar que é a autoridade da ANP que detém a soberania legítima. Este posicionamento insere-se numa tensão persistente entre autoridades que reivindicam legitimidade interna e atores que detêm o controle fático de territórios — uma tensão que molda a tectônica de poder na Palestina.
Para observadores externos e parceiros europeus, o gesto de convocar eleições do PNC poderá ser lido como um convite à reavaliação do papel das estruturas representativas palestinas no diálogo diplomático. Em termos práticos, abrirá um período de mobilização política que exigirá logística complexa, acordos para a participação no exterior e garantias de segurança nos pontos de votação.
Em síntese, a convocação de 1º de novembro de 2026 representa um movimento estratégico que busca restaurar uma peça importante no tabuleiro institucional palestino. Resta ver como as forças internas reagirão — e como a comunidade internacional, incluindo capitais influentes como Roma, posicionar-se-á diante de um reajuste que pode redefinir, em pequenos deslocamentos, os equilíbrios regionais.






















