Começou em Abu Dhabi o segundo round de negociações trilaterais entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia, um movimento diplomático que busca resolver um conflito que já atravessa quase quatro anos. No centro da agenda está o destino de territórios sensíveis: Donbass (incluindo Luhansk e Donetsk), a Crimeia, Zaporizhzhia, Kherson e Sumy. Moscou tem relançado a chamada «fórmula de Anchorage» como esqueleto para um acordo, enquanto Kiev exige garantias de segurança robustas e Washington tenta destravar um impasse de longa data.
O encontro em Abu Dhabi, que sucede o primeiro diálogo de final de janeiro, acontece em clima de tensão: há acusações mútuas de violações do cessar-fogo e novos ataques a infraestruturas críticas. O presidente norte-americano reafirmou a intenção de pressionar Vladimir Putin a «pôr fim à guerra», ao mesmo tempo em que autoridades ucranianas denunciam a continuidade das operações militares russas.
Fontes diplomáticas indicam que, após o primeiro encontro em Abu Dhabi, ganhou tração a hipótese de uma divisão ao estilo «coreano» da Ucrânia, com duas zonas de influência — uma sob forte influência russa e outra sob o controle de Kiev. Essa solução implicaria uma congelação institucional das linhas de facto, acompanhada por mecanismos internacionais de segurança e supervisão.
Do lado russo, a fórmula de Anchorage é apresentada como um quadro negociado que permitiria a Moscou ver reconhecidos alguns dos ganhos territoriais alcançados. Kiev, por sua vez, rejeita a ideia de ceder unilateralmente territórios conquistados, propondo a congelamento do conflito ao longo da linha de frente atual e exigindo garantias externas — político-diplomáticas e militares — que impeçam novas incursões.
Na prática, o que está sobre a mesa é um redesenho de fronteiras invisíveis: faixas de soberania contestada, zonas tampão entre Kharkiv e Donetsk, e a administração de regiões com populações divididas e infraestruturas estratégicas. Washington e Moscou parecem explorar um eixo de influência que, se consolidado, poderia centralizar a gestão da paz em mãos dos patrocinadores externos, com implicações econômicas e comerciais associadas.
Como analista, vejo estes desenvolvimentos como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico. A proposta de uma divisão à «coreana» não é apenas um arranjo territorial: é uma tentativa de cristalizar esferas de influência, criando alicerces — ainda que frágeis — para uma ordem regional redistribuída. Tal solução abriria espaço para um novo tipo de equilíbrio, mas também levantaria questões sobre precedentes legais e o futuro da soberania ucraniana.
Para Kiev, aceitar uma tal engenharia política significaria sujeitar-se a um pacto de contenção: território cedido formal ou informalmente, em troca de garantias externas que, na prática, teriam de ser sólidas e verificáveis. Para Moscou, trata-se de obter reconhecimento internacional de conquistas de terreno; para Washington, de preservar influência e estabilidade estratégica em uma região que é pivô da tectônica de poder euro-asiática.
Os próximos dias em Abu Dhabi podem definir tanto um roteiro prático de congelamento quanto os contornos de uma arquitetura de segurança regional. Na ausência de confiança mútua e com as memórias de hostilidade ainda vivas, qualquer acordo exigirá mecanismos de verificação e garantias multilaterais, sob risco de ser apenas mais um compasso num mapa em constante reconfiguração.
O mundo observa. No tabuleiro, as peças movem-se com cautela: cada concessão territorial é, ao mesmo tempo, um triunfo e uma vulnerabilidade. A diplomacia, agora, terá de erigir pontes onde antes havia trincheiras — e fazê-lo com a precisão de um arquiteto e a paciência de um grande mestre.






















