Ao final de uma década marcada por tensões e reacomodações, assiste-se a um movimento decisivo no tabuleiro da segurança global: o fim prático da era dos acordos START. Com isso, ressurge, de forma mais palpável, o espectro das armas nucleares como fator central da tectônica de poder entre grandes Estados.
O tratado New START (Strategic Arms Reduction Treaty) representou o último grande pilar da regulação nuclear estratégica ainda em vigor. Assinado em abril de 2010 por Barack Obama e Dmitri Medvedev, o acordo estabeleceu tetos claros para a composição e o desenvolvimento dos respectivos arsenais estratégicos. Estávamos diante de armamentos concebidos para ataques de elevado poder destrutivo — de centenas de kilotons a dezenas de megatons — e concebidos para cobrir distâncias intercontinentais.
Em termos operacionais, o tratado fixou limites para a posse, por cada parte, de 700 sistemas de lançamento, distribuídos entre ICBM (mísseis balísticos intercontinentais terrestres), SLBM (mísseis lançados por submarinos estratégicos) e bombardeiros pesados. No total desses vetores não poderia haver mais do que 1.550 ogivas nucleares implantadas. Havia também um teto adicional, de 800 unidades, relativo aos lançadores — silos e plataformas — e bombardeiros, tanto operacionais quanto em reserva.
Historicamente, o New START foi o capítulo mais recente de uma sequência iniciada com os acordos SALT (Strategic Arms Limitation Talks) em 1972, e consolidada na série START, cujo primeiro tratado foi assinado em 1991, em Moscou. Enquanto os SALT estabeleceram limites futuros a serem alcançados, a série START representou uma escolha distinta: impor um teto a ser diminuído — isto é, exigir a destruição e retirada de sistemas já existentes. Foi uma mudança de abordagem com efeitos concretos na segurança estratégica, reduzindo o volume de armas prontas para emprego e criando rotinas de cooperação e verificação.
O mecanismo de verificação do New START baseava-se em obrigações recíprocas de transparência: intercâmbio regular de dados, notificações sobre o status de forças e um regime de inspeções mútuas que permitia a cada parte conhecer e atestar o potencial estratégico da outra. Essas ferramentas reduziram incertezas e os riscos derivados de avaliações errôneas — a velha fragilidade que, em contexto nuclear, pode transformar deslizes em catástrofes.
Com o gradual esgarçamento desses instrumentos, porém, volta a emergir um problema estrutural: a erosão dos alicerces da diplomacia armamentista. A suspensão ou o enfraquecimento de acordos como o New START não apenas remove limites quantitativos sobre ogivas e vetores, mas reinstala dinâmicas de desconfiança e competição técnica que tornam o ambiente estratégico mais volátil. Em termos de geopolítica, é um redesenho de fronteiras invisíveis — deslocamentos de zonas de influência e axiomas técnicos que reconfiguram cálculos de dissuasão.
É necessário, portanto, compreender que o retorno desta questão ao centro do debate internacional não é apenas técnico; é profundamente político e diplomático. O desafio para as potências e para o sistema multilateral é restabelecer canais de diálogo capazes de reconstruir um mínimo de previsibilidade. Sem isso, os estados tendem a agir como jogadores que, na ausência de regras aceitadas, acumulam peças no tabuleiro de forma defensiva — um movimento que, paradoxalmente, aumenta as chances de conflito.
Como analista, insisto na lição histórica: tratados de controlo de armamentos não são meros artefatos burocráticos. São instrumentos de arquitetura estratégica que moldam incentivos e comportamentos. Permitir que eles se dissolvam sem um plano de substituição ou modernização é deixar que a estabilidade se funda sobre bases cada vez mais frágeis.
O retorno do espectro nuclear exige, portanto, uma resposta que combine prudência técnica, vigor diplomático e visão política de longo prazo. Sem um reequilíbrio institucional, o mundo corre o risco de ver restabelecer-se uma corrida que havia sido, com esforço, contida — e cuja consequência última, no xadrez da história, seria perdermos todos na jogada final.






















