Por Stella Ferrari — Em um depoimento direto e sem artifícios publicado no Instagram, a modelo Bianca Balti transformou palavras em alerta no Dia Mundial contra o câncer. Sua mensagem desmonta a narrativa simplista de recuperação como uma reta ascendente: o percurso é feito de encruzilhadas emocionais, julgamentos e contradições que a sociedade costuma não querer ver.
No post, Balti conta que, após identificar a mutação BRCA1, optou por uma mastectomia preventiva. Em resposta ouviu perguntas duras, do tipo: ‘Por que fazer isso se você não está doente?’. Antes do diagnóstico, quando ela dizia que algo não estava bem, foi desconsiderada como paranoica. E, quando a doença veio, surgiram outras cobranças: ‘Por que não tirou as ovárias, se sabia da mutação?’. Essas frases, soltas por observadores sem contexto, revelam a pressa em julgar mais do que em entender.
Durante o tratamento, as pessoas demonstravam pena. Eu me sentia mais forte, só queria uma coisa: sentir-me normal. Quando a quimioterapia acabou e o cabelo cresceu, todos acharam que eu estava bem. Não era verdade. O câncer não é uma linha reta. É dúvida, minimização, culpa, força, medo, adrenalina, luto, muitas vezes tudo junto.
As imagens que acompanharam a legenda deixam visível a dissonância entre aparência e estado interno — o clássico efeito entre o que se vê no espelho e o que a pessoa sente. Balti encerra com um apelo simples e contundente: se isso soa familiar, você não está só. E, para quem convive com alguém nessa condição, o conselho é cristalino: escute mais, tente consertar menos.
No meu olhar como estrategista econômica que acompanha tendências sociais e culturais, essa fala é um lembrete da necessidade de calibragem fina nas respostas coletivas. Assim como se afina o motor de um veículo de alta performance para extrair o melhor sem forçar peças, devemos calibrar nossa reação diante do câncer: empatia acionada, soluções precipitadas reduzidas. A economia emocional aqui tem seu próprio torque — excitação e overload não substituem apoio concreto.
Há uma lição administrativa também: políticas públicas, campanhas de saúde e ambientes de trabalho precisam reconhecer a não linearidade da jornada do paciente. Medidas padronizadas são úteis, mas insuficientes; exigem personalização, escuta ativa e rede de suporte que vá além da aparência de recuperação.
Bianca Balti trouxe à luz aquilo que muitas enfrentam em silêncio. A sua declaração é uma convocação para mudar o tom das conversas sobre saúde: menos julgamento, mais presença. Para quem acompanha pacientes — familiares, amigos, colegas — a instrução é prática e direta, quase uma regra de engenharia social: ouça, ajuste expectativas, reduza a pressa em consertar. Se isso lhe é familiar, você não está sozinha.
Stella Ferrari
Economista sênior e estrategista de desenvolvimento — voz da Espresso Italia






















