Por Stella Ferrari — A nova etapa de Bridgerton, primeira parte da quarta temporada, funciona como um motor afinado que mistura tramas e subtelas: calçados vistosos, flores, doces refinados e, claro, o rumor que não pede verificação dos fatos. Os primeiros quatro episódios já estão disponíveis na Netflix e retomam a fórmula que transformou a série em fenômeno, porém com uma calibragem diferente na dinâmica social.
No centro desta fase está a revelação da identidade da célebre cronista de fofocas: a enigmática Lady Whistledown não é mais um fantasma anônimo. Agora todos sabem tratar-se de Penelope Bridgerton (Nicola Coughlan), cuja ascensão a um papel próximo ao poder — uma cumplicidade com a icônica Queen Charlotte — altera o curso do pettegolezzo. A rainha usa a gazeta para sussurrar desejos e preferências da aristocracia, convertendo papéis e rumor em instrumento político e social.
A principal linha dramática coloca o carismático segundo filho da família, Benedict Bridgerton, diante de um interesse improvável: Sophie Baek (Yerin Ha), uma jovem doméstica. A relação abre uma questão clássica — a rigidez das classes sociais — e transforma o enredo em um estudo de tensão entre desejo e convenção. Benedict, libertino e de identidade fluida, é um operário do próprio estilo, menos interessado em rótulos e mais na autenticidade dos afetos. Sophie, por sua vez, é a verdadeira Cinderela desta versão: talento e sensibilidade que chacoalham as engrenagens da alta sociedade.
O método de cortejo permanece fiel ao protocolo da série: encontros às escondidas, beijos que desafiam normas, declarações que são quase crimes de estado. A diferença é que, desta vez, o freio principal não é um segredo pessoal, mas o tecido social que classifica e separa — um tema que expõe a hipocrisia e a elasticidade dos costumes em um regime de aparências.
Além do enredo central, a temporada oferece múltiplas linhas secundárias que mantêm o ritmo: a vida íntima entre Lady Violet e Lord Marcus Anderson, o romance entre Francesca e John Stirling, e a fase de abstinência e independência escolhida por Eloise, que rejeita o papel de pretendente para se dedicar aos livros e à autonomia. Essas subtramas atuam como componentes de um conjunto mecânico complexo, onde cada relação serve de pistão para mover a narrativa.
Um ponto notável é a projeção do pessoal de serviço ao centro do pettegolezzo: os funcionários deixam de ser cenário para virar notícia. A rainha ironiza a curiosidade da corte com o destino de “pessoas comuns”, mas a série parece consciente do poder cultural desses relatos: transformar a intimidade alheia em entretenimento é a engrenagem que sustenta tanto a gazeta de Lady Whistledown quanto nossa própria indústria do rumor contemporâneo.
Em resumo, Bridgerton 4, primeira parte, é uma mistura de romance proibido, manobras de poder e ostentação visual — tudo perfeitamente polido como a carroceria de um automóvel de luxo. Para quem busca apenas escândalo, há banquete; para quem procura design de personagens e recalibração das convenções sociais, há material suficiente para análise. A aposta da temporada é clara: acelerar as tendências de representação, sem perder o prazer refinado do pettegolezzo.





















