Por Chiara Lombardi — Em um movimento que reescreve, com delicadeza e contundência, partes do panorama artístico romano do pós‑guerra, a doação da Cy Twombly Foundation à Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea (GNAM) inaugura uma nova sala que abriga treze obras do artista. A diretora Renata Cristina Mazzantini apresentou a coleção e o volume homônimo publicado pela Electa, destacando como esse gesto institucional reafirma o vínculo íntimo entre Cy Twombly e Roma.
Mazzantini sublinhou que a parceria público‑privada foi decisiva: além de viabilizar a publicação, permitiu financiar um projeto plurianual de restauro de obras em papel contemporâneo. Essa colaboração, nas palavras da diretora, transforma o museu não apenas em repositório, mas em produtor de conteúdo cultural — restaurando textos históricos difíceis de encontrar e republicando-les num contexto renovado.
O livro que acompanha a doação reúne ensaios e documentos essenciais que reconstituem o roteiro oculto do diálogo entre Twombly e a comunidade artística romana das décadas de 1950 e 1960. A publicação recupera vozes e textos agora raros, oferecendo um mapa crítico que mostra por que o artista é considerado um protagonista do segundo século XX, conhecido internacionalmente, mas profundamente enraizado na experiência italiana.
Ao celebrar a entrada de Twombly na coleção permanente da Galeria, Mazzantini afirmou que o artista se reafirma como um dos nomes centrais da arte contemporânea em Itália, consolidando o laço entre a cidade eterna e a sua poética. É possível ler esse gesto institucional como um reframe da realidade: não apenas a preservação de obras, mas a reinserção de uma narrativa cultural no eixo romano, reativando memórias e debates.
Como observadora do Zeitgeist, vejo nessa doação um espelho do nosso tempo — um convite para reassistir cenas que moldaram sensibilidades artísticas e, ao mesmo tempo, um alerta sobre a fragilidade do suporte papel, cujo restauro ganha agora prioridade. A sala com as treze obras funciona como uma mise‑en‑scène curatorial, onde cada carta, grafia e marca do artista se torna um pequeno roteiro de significados, eco cultural que reconecta imagem, memória e cidade.
Ao restaurar e tornar acessíveis essas peças e textos, a GNAM e seus parceiros estão escrevendo uma nova cena para o público: a de um museu que não apenas guarda, mas dialoga com o presente. A doação da Cy Twombly Foundation e a publicação da Electa não são um epílogo, mas o início de um capítulo que promete reanimar o debate sobre os anos 50 e 60 em Roma — décadas em que se desenhou muito do que consideramos hoje central na arte contemporânea europeia.
Em termos curatoriais e simbólicos, trata‑se de um gesto que reafirma a cidade como palco e personagem: Roma, mais uma vez, volta ao centro do enquadramento cultural, e Twombly, com sua escrita pictórica e sua relação com o lugar, desponta como narrador dessa cena compartilhada.






















