Por Chiara Lombardi — Em um gesto que é ao mesmo tempo legado e projeto futuro, a Cy Twombly Foundation concluiu no ano passado uma doação planejada por anos que reforça o lugar do artista no cânone contemporâneo europeu. Segundo Eleonora Di Erasmo, managing director da Cy Twombly Foundation, a contribuição inclui obras, o financiamento de um laboratório de restauro para o museu e uma bolsa de estudos com duração de 15 anos destinada a um conservador especializado em obras em papel contemporâneo.
A declaração foi feita durante a apresentação da coletânea de livros intitulada “Cy Twombly”, assinada pelo próprio Edwin Parker Jr., conhecido artisticamente como Cy Twombly, publicada pela editora Electa com o apoio da Maire, evento realizado na Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea. A ocasião reuniu curadores, conservadores e vozes institucionais para discutir o alcance de uma doação que é, em essência, um investimento na preservação e na leitura crítica do acervo.
Há uma sutileza cultural nesse ato: ao doar obras e recursos para a conservação, a fundação não apenas protege o legado material de Cy Twombly, mas desencadeia um diálogo sobre como o traço, o gesto e o papel — elementos centrais na obra do artista — são mantidos vivos no tempo. É como se a instituição tivesse oferecido ao museu um espelho técnico para refletir e reconstituir o rosto das obras, evitando que a passagem do tempo corroa o seu estado original.
O financiamento do laboratório de restauro representa uma aplicação prática e estratégica: permitirá intervenções especializadas em obras que exigem métodos contemporâneos de conservação, especialmente trabalhos em papel, superfície que demanda conhecimento técnico apurado e sensibilidade histórica. Já a bolsa de estudos de 15 anos assegura continuidade institucional — uma figura profissional dedicada, capaz de desenvolver protocolos, documentar processos e formar expertise que transcende um projeto pontual.
Na perspectiva de observadora cultural, penso no gesto como um reframe do compromisso patrimonial: não se trata apenas de transferir objetos para vitrines, mas de criar condições de preservação técnica e intelectual. A iniciativa é um roteiro prático que antecipa futuras leituras críticas e exposições, garantindo que o material bruto do legado — papéis, cadernos, marcas — continue a contar histórias sem desaparecer no ruído do tempo.
Além disso, a parceria editorial com a Electa e o apoio da Maire, anunciados durante o evento na Galleria Nazionale, mostram como instituições, fundações e editoras podem compor um ecossistema de memória: livros e pesquisas alimentam o trabalho de conservação; o laboratório devolve à comunidade acadêmica e ao público a possibilidade de ver obras em condições ideais; a bolsa forma pessoas que serão guardiãs desse patrimônio.
Em suma, a doação da Cy Twombly Foundation é um pequeno manifesto sobre como cultura e técnica se entrelaçam. Ao financiar o laboratório de restauro e instituir uma bolsa de estudos prolongada, a fundação não apenas preserva um acervo — ela planta as bases para que o legado artístico permaneça vivo, legível e capaz de provocar novas interpretações, como um roteiro oculto que continua a escrever o diálogo entre arte, memória e comunidade.






















