Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que atravessa canteiros e salas de museu, Maire reafirma uma convicção que soa quase como um manifesto: a engenharia contemporânea deve incorporar um olhar cultural. Foi essa a ideia central exposta por Fabrizio Di Amato, presidente e fundador da Maire, durante a apresentação da coleção de livros dedicada a Cy Twombly (Edwin Parker Jr.), publicada pela Electa com o apoio da empresa, realizada na Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea.
Di Amato defende o ideal do engenheiro humanista, um profissional que não apenas projeta e constrói grandes obras — essenciais, por exemplo, na transição energética —, mas que também dialoga com as artes, a memória coletiva e a experiência humana. Segundo ele, iniciativas culturais como a publicação das obras de Cy Twombly ajudam a reinterpretar criações artísticas sob uma lente que respeita tanto a técnica quanto a subjetividade: “a cultura nos ajuda a interpretar aquilo que o artista realizou em chave engenheirística, como os romanos”, afirmou Di Amato, lembrando que as obras daquela época combinavam grandeza técnica com uma atenção marcante à pessoa.
Essa intervenção revela um roteiro oculto do nosso tempo: a engenharia não é um domínio isolado de equações e eficiência; é também um palco onde se escreve o futuro habitável das cidades e das paisagens energéticas. Pensar a estrutura como um corpo social significa reconhecer que cada infraestrutura carrega símbolos, memórias e impactos que transcendem a utilidade imediata. É nesse reframe da realidade que projetos e políticas podem ganhar legitimidade cultural, e assim, maior aceitação social.
A escolha de apoiar a obra de Cy Twombly — cuja poética visual dialoga com ruínas, caligrafia e memória — não é casual. Há uma afinidade simbólica entre o gesto artístico e o gesto projetual: ambos moldam contextos, ambos traduzem tempo em forma. Para Di Amato, esse cruzamento entre arte e engenharia funciona como um espelho do nosso tempo, sugerindo que o bom projeto técnico deve considerar a experiência humana como núcleo de sua razão de ser. Em termos práticos, isso influencia desde o desenho de grandes centrais até espaços urbanos menores, com desdobramentos relevantes na transição para fontes renováveis e na integração social das infraestruturas.
Enquanto observadora cultural, vejo nessa fala uma chamada para desautomatizar o processo projetual: convidar arquitetos, artistas e historiadores para a mesa não é um gesto cosmético, mas uma estratégia de profundidade. A história dos romanos, citada por Di Amato, funciona aqui como um ensinamento: uma engenharia que olha para o humano e para a cidade produz obras que resistem ao tempo, não apenas fisicamente, mas simbolicamente.
Ao final, a presença de Maire ao lado da Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea e da Electa realça uma tendência contemporânea — empresas de tecnologia e infraestrutura assumem papéis como curadoras de memória e patrocinadoras de cultura. O resultado é uma paisagem onde o projeto técnico e o gesto artístico se alimentam mutuamente, e onde o conceito de engenheiro humanista passa de ideal a necessidade concreta na era da transição energética.
Chiara Lombardi — Espresso Italia: a cultura como lente para entender o futuro das cidades e das energias.






















