Por Giuseppe Borgo — Em entrevista ao Corriere della Sera, Gianfranco Fini classificou como “absurda” a comparação que o coloca no mesmo patamar político de Vannacci e reagiu ao rótulo de “traidor” que reapareceu nas declarações de figuras da Lega.
Fini lembra os episódios que levaram à sua saída do grupo que ajudou a fundar. “O Pdl não foi um barco que abandonei por vontade própria: fui declarado ‘incompatível’ por Silvio Berlusconi, que em direto na televisão me disse que, se queria fazer política — ou seja, manifestar opiniões que por vezes não coincidiam com as dele —, deveria renunciar ao cargo de presidente da Câmara”, afirmou. Para ele, não houve nem traidores nem traídos: “foi o desfecho de uma fratura política”.
O contexto atual, porém, é diferente. Ao comentar o embate entre Matteo Salvini e Vannacci, Fini traça uma distinção clara: “Nada minimamente comparável à minha história. A convergência entre Salvini e Vannacci foi breve e movida por interesses táticos, sem um projeto político de fundo”.
Segundo o relato do ex-presidente de An, Salvini teria apoiado a candidatura de Vannacci movido por um cálculo oportunista — acreditando que o apoio seria útil no plano tático e que o candidato não apresentaria problema. Por sua vez, Vannacci teria visto na estrutura da Lega um “táxi” gratuito para alcançar o Parlamento Europeu, aproveitando a máquina eleitoral alheia para impulsionar sua carreira pessoal.
Essa leitura de Fini destaca dois elementos que têm peso nas estruturas do poder: o uso instrumental de candidaturas e a fragilidade de alianças construídas apenas sobre conveniências. Em linguagem que busca ser mais que retórica, Fini coloca sua própria saída como um episódio que decorreu de incompatibilidade institucional — uma ruptura que teve o peso da caneta e dos alicerces da lei — enquanto vê a subida de Vannacci como tática imediatista.
Como repórter dedicado à ponte entre as decisões de Roma e a vida dos cidadãos, observo que a comparação proposta por Salvini serve mais como sinal político do que como análise histórica: rotular alguém de traidor é muitas vezes um expediente retórico para simplificar uma fratura política complexa. No caso de Fini, a narrativa é enraizada em um conflito institucional público; no caso de Vannacci, segundo Fini, a história se resume a oportunismo e cálculo eleitoral.
O episódio evidencia, novamente, a arquitetura volátil das alianças partidárias na Itália contemporânea — onde, por vezes, a ponte entre interesses pessoais e as demandas do eleitorado se mostra frágil, e as consequências recaem sobre o debate público. A construção de direitos e responsabilidades públicas exige mais que manobras táticas; exige clareza programática e coerência institucional, afirma Fini indiretamente com sua crítica.
Segue o debate aberto: chamar alguém de traditore pode ganhar manchetes, mas não resolve a pergunta sobre a natureza das rupturas políticas nem sobre como essas rupturas afetam a confiança dos cidadãos nas instituições.






















