Itália enfrenta um momento de serenidade inquieta: enquanto a pesquisa oncológica avança, a força de trabalho que cuida das pessoas com câncer se revela exígua. Segundo a Associazione italiana di oncologia medica (Aiom), há pouco mais de 3 mil oncologistas no país — cerca de 5 por 100 mil habitantes — para atender uma plateia anual de aproximadamente 390 mil novos casos de câncer e algo como 3,5 milhões de pessoas vivendo com o diagnóstico.
Essa conta não fecha sem consequências. Além da evidente carência numérica, os médicos estão sufocados por um enorme volume burocrático que acumula estresse, dispersa energia e, sobretudo, rouba tempo precioso que deveria ser dedicado aos doentes. É como observar uma colheita de compromissos onde as folhas administrativas crescem mais rápido que a raiz do cuidado: a respiração da clínica fica curta.
Na Giornata mondiale contro il cancro, a Aiom acende holofotes sobre dois lados da paisagem oncológica: os avanços terapêuticos e as fraturas do sistema. Há motivos para esperança — dados europeus recentes apontam para uma diminuição da incidência global de tumores em 2026, com queda de 1,7% na Europa e 2,6% na Itália em comparação a 2022 — mas nem todas as colheitas são homogêneas. Entre as mulheres, observa-se um aumento dos casos de câncer de pulmão, reflexo persistente do hábito tabágico e das raízes culturais que ainda alimentam o risco.
Para enfrentar esse terreno, a prevenção volta a ser palavra-chave. A campanha recém-lançada para aumentar em 5 euros o preço dos cigarros e dos produtos de tabaco já reuniu mais de 18 mil assinaturas em poucos dias, com o objetivo de levar uma proposta de iniciativa popular ao Parlamento. É um gesto coletivo que busca mudar o clima da cidade: pequenas medidas, como a subida do preço, podem agir como uma poda que reduz futuros incêndios na saúde pública.
Mas a solução plena pede tempo e investimento: mais formação, atração de jovens médicos para a oncologia, reforço no quadro de enfermeiros e simplificação dos processos burocráticos que hoje ocupam consultas e minutos que deveriam ser de escuta, empatia e cuidado. Sem isso, a prática clínica corre o risco de virar um expediente administrativo, onde o corpo do doente é medido em formulários e não em histórias.
Como observador sensível do cotidiano, vejo nessas estatísticas a paisagem de uma Itália que precisa reencontrar seu ritmo: permitir que o tempo interno do corpo e da clínica volte a respirar. A prevenção, as políticas públicas e o reconhecimento do peso da burocracia sobre o estresse profissional são sementes para um horizonte mais sustentável, onde a ciência e o cuidado floresçam juntos.
Enquanto a pesquisa celebra passos adiante, a chamada é prática e urgente: aliviar o fardo administrativo, investir em pessoal e fortalecer campanhas como a do aumento do preço do tabaco. Só assim se garante que cada minuto médico retorne ao paciente que precisa — e que a cidade recupere a calma de sua respiração.
Por Alessandro Vittorio Romano — Espresso Italia






















