Por Chiara Lombardi — Em um gesto que é ao mesmo tempo reverência e reescrita, o pianista e compositor Francesco Chebat realiza um sonho antigo: lançar um disco dedicado ao gigante do jazz Chick Corea. Intitulado “The Wand, Chick Corea and beyond”, o álbum assinado pelo Francesco Chebat Trio chega em cópia física e nas plataformas de streaming pela independente Clessidra Records, a partir de amanhã.
O título — que pode ser traduzido como “a varinha, Chick Corea e além” — aponta para aquilo que Chebat chama de o toque mágico do compositor americano: uma marca sonora inconfundível, fruto tanto da virtuosidade técnica quanto de uma habilidade singular para moldar melodias e texturas. É esse ponto de contato entre técnica e poética que o trio busca captar, sem jamais se tornar uma mera reprodução.
Formado pelo próprio pianista, nascido em Trento e residente em Comun Nuovo, e pelos milaneses Riccardo Fioravanti (contrabaixo) e Maxx Furian (bateria), o trio se movimenta com segurança entre o jazz moderno e a fusion. A iniciativa nasceu de conversas e ensaios que revelaram um desejo comum: reinterpretar peças de Corea e compor à luz de suas referências.
A tracklist reúne nove faixas, quatro diretamente ligadas ao cânone coreano — “Hymn of the Seventh Galaxy”, “Tone Poem”, “Duende” e “Silver Temple” — e cinco criações originais de Chebat: “Night Radio”, “Lume”, “The Wand”, “A Weird Storyteller” e “Underwater Blue”. A proposta, explica o pianista, não foi clonar as gravações elétricas do mestre, mas ressignificá-las no formato do trio acústico ao piano de cauda e escrever novas peças que dialoguem com esse universo musical.
A paixão de Chebat por Chick Corea tem raízes na infância. Filho de um baterista profissional que mantinha uma loja de discos no Trentino, ele cresceu entre os vinis de Jimmy Smith, Keith Jarrett e do rock de qualidade. Aos 12 anos, em 1991, um disco trouxe uma epifania: “Beneath the Mask”. “Fiquei folgorato”, recorda. Desde então, o desejo de prestar um tributo foi lentamente tomando forma, alimentado por uma formação clássica que o aproximou das grandes tradições melódicas — Stravinski, Scarlatti, Bartók e Mozart — e pela escuta atenta da semiótica do jazz.
No gesto de transformar peças originalmente elétricas em arranjos para piano trio, há um tipo de reframe da realidade musical: o elétrico vira acústico, o gesto virtuoso se revela em nuances tímbricas, e o eco cultural de Corea é refratado pela sensibilidade dos três músicos. “Seria inútil fazer uma cópia”, diz Chebat; “preferimos dar uma veste inédita e escrever músicas que conversassem com seu mundo.” É, em suma, um ato de afeto e de reconhecimento, tanto ao compositor quanto ao legado que ilumina tantos figuras da cena contemporânea.
Ao ouvir o disco, o ouvinte se depara com um roteiro oculto do tempo: referências clássicas que emergem como frames cinematográficos, solos que funcionam como close-ups emocionais e um senso de narrativa que transforma cada faixa em cena. O tributo de Chebat é, portanto, mais do que homenagem — é uma leitura autoral que coloca o trabalho de Corea no espelho do nosso tempo.
“The Wand, Chick Corea and beyond” promete ser um ponto de encontro entre memória, técnica e invenção. Para quem acompanha o percurso do Francesco Chebat Trio, é também a confirmação de uma voz que sabe reverenciar suas raízes sem abdicar da própria linguagem.






















