Por Giuseppe Borgo — Em Modena, o general e eurodeputado Roberto Vannacci oficializou seu afastamento definitivo da Lega e apresentou publicamente o novo projeto político, Futuro Nazionale. Em uma conferência de forte tom político e clareza programática, Vannacci respondeu ponto por ponto às acusações de deslealdade vindas do Carroccio e fez um diagnóstico severo da liderança de Matteo Salvini.
O general rejeitou a narrativa de oportunismo: ‘Não é que eu tenha pegado um táxi; foi o táxi que mudou de rota para um destino que não me pertence. Então desci e segui a pé, com mochila, bússola e mapa’. A metáfora da caminhada traduz a vontade de construir um caminho próprio, pedra sobre pedra, na arquitetura da representação política à direita.
Vannacci contrapôs a afirmação de Salvini — de que a entrada dele na política europeia se deu graças à Lega — com um número: graças aos seus ‘ 500 mil votos ‘ teria permitido ao partido conquistar dois eurodeputados a mais. A declaração visa reposicionar seu peso eleitoral como alicerce concreto, e não como favor ou bondade de legenda.
Mesmo antes de formalizar o partido, Vannacci destacou um dado de pesquisa que o dá em 4,2%: ‘Esse número não é vaidade, é rampa de lançamento — mostra que um segmento do eleitorado procura interlocução que a atual oferta política não dá’. O resultado, disse ele, confirma que há espaço para um projeto que recupere princípios considerados esquecidos dentro do espectro de direita.
O cerne do discurso foi o relato das razões que o levaram a deixar a Lega. Vannacci afirmou ter entrado no partido como portador de princípios claros e que, quando estes foram corroídos, tornou-se impossível permanecer em um ‘recipiente’ que trai sua identidade. Denunciou a contradição de uma força política que se proclama sovranista em alguns momentos e adota posturas mais liberal-progressistas em outros.
Entre os exemplos citados pelo eurodeputado estão a posição sobre o envio de armas para a Ucrânia e as mudanças na reforma da Fornero. Para ele, não se pode prometer ruptura eleitoral e depois ratificar decisões opostas ao assumir responsabilidades de governo. Acrescentou que seu papel interno foi reduzido a um título sem poder real — um vice-secretariado formal, desprovido de autoridade — e que sofreu ataques constantes da direção do partido.
No plano dos valores, Vannacci queria deixar claro que lealdade não é sinônimo de obediência cega. ‘Lealdade é firmeza de princípios; disciplina não pode ser ausência de pensamento’, afirmou, sublinhando a diferença entre honra e conformismo. Em tom crítico, dirigiu ainda palavras duras à administração local de Modena, lembrando suas raízes na Academia Militar e qualificando a cidade como exemplo do que, na sua visão, foi um fracasso da gestão de esquerda.
O lançamento do Futuro Nazionale surge, portanto, como tentativa de erguer novos alicerces no espectro conservador: um projeto que promete convergir princípios de soberania, clareza política e recuperação do vínculo com o eleitor. A iniciativa será testada nas próximas semanas nas praças e nas bases eleitorais onde Vannacci pretende transformar o capital simbólico em estrutura organizativa.
Da nossa perspectiva, como ponte entre as decisões de Roma e a vida cotidiana dos cidadãos, resta acompanhar se esse novo ator conseguirá transformar discurso em prática e derrubar as barreiras burocráticas e partidárias que tantas vezes impedem a construção de soluções concretas. O peso da caneta e da assinatura não muda apenas corações; muda direitos e serviços. Assim, a caminhada de Vannacci, desde a descida do ‘táxi’ até a trilha a pé, será um teste sobre a capacidade de traduzir promessas em políticas tangíveis.
Em termos práticos, o desafio imediato para o Futuro Nazionale é consolidar uma estrutura que dê suporte às intenções e evitar a fragmentação da área de direita: construir uma ponte entre eleitores descontentes e uma oferta política que se coloque como alternativa coerente, sem ceder à volatilidade que, segundo Vannacci, marcou os passos recentes da Lega.
Seguiremos cobrindo os desdobramentos, avaliando não apenas as declarações mas também os atos que traduzirão esse novo projeto em realidade institucional.






















