Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
As Olimpíadas Milano Cortina 2026 chegam com a inevitável combinação de espetáculo e custo. Não há surpresa em que a organização tenha investido cifras elevadas para montar a mostra esportiva: a estimativa de gastos ultrapassa os 6 bilhões de euros. Esse número, por si só, é menos chocante que a discussão sobre como esse investimento será percebido pela sociedade — em termos de legado infraestrutural e de impacto social — e como será distribuído entre retorno econômico e visibilidade internacional.
A agência de rating Standard & Poor’s já tentou compor os dados disponíveis, ainda parciais: parte das obras só será finalizada em 2032, momento em que se poderá contabilizar verdadeiramente a herança física e social deixada pelos jogos. Enquanto isso, a receita projetada inclui cerca de 400 milhões de euros em direitos de transmissão e patrocínios — mas há um ponto sensível que permanece em aberto: a venda de bilhetes.
Segundo os registros mais recentes, foram comercializados na plataforma cerca de 900 mil bilhetes e outros 300 mil foram destinados aos patrocinadores, somando 1,2 milhões de entradas. Ainda assim, a poucas horas da cerimônia de abertura, há um lote relevante de ingressos não vendidos — o que alimenta debates públicos sobre preço e acesso.
O catálogo de opções é extenso e os valores variam muito conforme a prova, a disciplina e a fase da competição. Na noite de abertura, no estádio de San Siro, os preços anunciados vão de 260 euros a 2.026 euros. Já a cerimônia de encerramento apresenta o pico: de 950 a 2.900 euros. Não se trata apenas de cifras; é um sintoma das tensões entre exclusividade do espetáculo e a promessa olímpica de universalidade.
Para as competições em si, há alternativas mais acessíveis: as fases preliminares do hóquei feminino têm ingressos a partir de 30 euros para lugares menos privilegiados. No extremo oposto, a final do hóquei masculino pode chegar a 1.400 euros. Em média, as fases finais das várias modalidades oscilam entre 150 e 300 euros — patamar comparável, nas palavras do ministro dos Esportes e dos Jovens, Andrea Abodi, a uma partida de futebol, ainda que com natureza e dimensão simbólica diferentes.
Abodi argumentou que a atenção tende a se concentrar no preço máximo, em vez de na faixa baixa, e que as Olimpíadas são um evento para todas as classes. Há, de fato, um leque de ingressos mais acessíveis; porém, a existência de bilhetes de alto valor coloca uma questão política: qual é a prioridade do evento — ser vitrine para investimentos e espetáculos premium, ou exercício de inclusão massiva?
Como alternativa ao público presencial, há a cobertura televisiva e em streaming da RAI, que garante acesso gratuito às transmissões. Esse ponto é crucial: a presença física em estádios é limitada e desigual, enquanto a transmissão pública permanece o mecanismo mais eficaz de democratização do espetáculo.
Milano Cortina 2026 será, portanto, um estudo em contradições. Investimentos bilionários prometem legado e visibilidade, mas a distribuição de acesso — entre bilhetes caros, pacotes para patrocinadores e transmissões gratuitas — dirá muito sobre a relação entre evento e sociedade na Itália contemporânea. Como observador, mais me interessa entender como esses jogos serão lembrados: pelo brilho efêmero das cerimônias ou pela capacidade de construir memória pública e infraestruturas úteis para as próximas décadas.






















