Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance calculado no final de um xadrez diplomático, o Kremlin manteve ontem uma posição de reserva sobre relatos de um contato recente entre Paris e Moscou. O porta-voz Dmitry Peskov afirmou, citando a agência Interfax, que o Palácio do Eliseu “não negou nem confirmou” a presença do assessor diplomático do presidente francês Emmanuel Macron, Emmanuel Bonne, em Moscou, e que, por um gesto de solidariedade protocolar, o Kremlin tampouco iria confirmar ou negar a informação.
Relatos da agência Reuters indicaram que Bonne teria se reunido com Yuri Ushakov, assessor para política externa do presidente Vladimir Putin. Peskov já havia reconhecido anteriormente que existem “contatos a nível operacional” com a França, mas descartou que se trate de diálogos em “alto nível” — ou seja, encontros diretos entre os dois chefes de Estado.
Em Moscou, o tom oficial também foi marcado por preocupação com a recente expiração do tratado New START, último pacto bilateral de controle de armamentos nucleares entre a Rússia e os EUA. Peskov expressou “rammarico” pela falta de resposta americana à proposta de Putin para estender por pelo menos um ano os limites do tratado, reiterando que Moscou manterá um “comportamento responsável e atento” no campo da estabilidade estratégica, embora orientado pelos interesses nacionais russos.
Paris, por sua vez, prepara um telefonema entre Macron e Putin, mas fontes francesas ouvidas pela agência Tass avisam que a preparação de um diálogo “construtivo” exigirá alguns dias — sinal de que, mesmo quando o aparato diplomático tenta aproximar peças no tabuleiro, o trabalho de coordenação e de desenho das garantias é minucioso.
No epicentro das conversas que prosseguem em Abu Dhabi, a posição russa entregue a interlocutores trilaterais é clara: qualquer acordo de ampla abrangência deve incluir o reconhecimento internacional do Donbass como parte da Federação Russa. Fontes ocidentais citadas pela Tass relatam que Moscou considera “muito importante” que esse aspecto seja aceito por todos os países envolvidos.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de pedir a validação formal de uma mudança de fronteira de facto — um movimento que altera o desenho invisível das esferas de influência e reclama, como numa arquitetura clássica instável, novos alicerces jurídicos para assentamento da ordem territorial.
Enquanto isso, o primeiro-ministro polonês Donald Tusk chegou a Kiev e foi recebido na estação ferroviária pela diplomacia ucraniana, sinalizando o vigor do apoio europeu ao governo de Kyiv. Em paralelo, o enviado especial do Kremlin, Kirill Dmitriev, afirmou à Tass que existem “passos avançados positivos” nos diálogos trilaterais — mesmo “apesar dos guerrafondai britânicos e da UE”, que, segundo ele, tentariam minar as negociações.
Dmitriev acrescentou que Moscou busca também restaurar relações econômicas com Washington por meio de um grupo bilateral de cooperação econômica russo-americano, demonstrando que a tectônica de poder passa tanto pela diplomacia política quanto por iniciativas pragmáticas no terreno econômico.
O quadro que emerge é o de um tabuleiro em que cada movimento é pesado: há tentativas reais de avanço nas negociações, mas persiste um longo caminho técnico e político até um compromisso que refunde garantias, fronteiras e mecanismos de segurança. A consequência mais direta é que qualquer acordo futuro terá de conciliar a necessidade de estabilidade estratégica com a realidade dura dos interesses nacionais, numa dinâmica que continuará a reconfigurar as linhas de influência na Europa e além.






















