Por Marco Severini — A economia russa apresentou em 2025 um crescimento real do PIB da Rússia de apenas 1%, segundo declaração oficial do presidente. Esse resultado representa uma desaceleração clara em relação ao desempenho dos dois anos anteriores, quando a expansão superou, em média, os 4% ao ano. É um movimento que, no meu conceito de analista, configura um novo lance no tabuleiro: a combinação entre choques exógenos nos preços de commodities e limitações internas de dinamismo produtivo.
O início do ano teve um ritmo anualizado superior ao do fechamento, mas os trimestres finais, especialmente o terceiro, evidenciaram uma perda de ímpeto. O setor da manufatura, que vinha sendo um dos motores da recuperação, desacelerou fortemente: entre julho e setembro o avanço foi de apenas 1,4%, contra 3,8% do período anterior. Outros ramos também registraram arrefecimento: construção reduziu o ritmo de 2,7%, hotéis e restauração caíram de 9,2% para 8,6%, mineração recuou 0,7% e vendas no atacado e varejo diminuíram 1,1%.
Setores como transporte e imobiliário igualmente mostraram contração — o transporte teve queda de 1,7% e o mercado imobiliário registrou -0,7%. Em contraste, atividades primárias — agricultura, silvicultura, caça, pesca e aquicultura — mantiveram resiliente expansão acima de 3%.
Entre os fatores mais determinantes para esse freio está a queda dos preços do petróleo. Em 2025 o Brent ficou em média abaixo de US$68/barril e o WTI permaneceu abaixo de US$65/barril. Apesar da participação russa no Opec+, o consórcio evitou cortes drásticos de produção ao longo do ano, o que, numa leitura estratégica, aliviou pressões inflacionárias globais, mas comprimou receitas fiscais de Moscou.
O impacto fiscal é evidente: as receitas do Estado recuaram cerca de 24% no agregado, alimentando um déficit que atingiu 37,28 trilhões de rublos. Ao mesmo tempo, a despesa pública subiu para 42,93 trilhões de rublos, um aumento de 6,8%, ampliando a folga orçamentária e pressionando as escolhas de política macroeconômica.
Em 2024, por contraste, o país havia registrado um crescimento de +4,3% impulsionado por uma forte recuperação industrial — com salários crescendo na casa dos 9% e inflação acima de 9,5%. A passagem para 2025, portanto, não é apenas um número isolado, mas o reflexo de uma arquitetura econômica cujos alicerces foram desgastados pelo preço das commodities e por um cenário geopolítico que ainda impõe custos: a União Europeia avançou na direção de reduzir importações energéticas russas, incluindo decisão de interromper importação de gás russo a partir de 2027.
Do ponto de vista das políticas, o Kremlin já vinha sinalizando um ajuste: o presidente advertiu a necessidade de medidas monetárias para conter a inflação e preservar a estabilidade financeira. Trata-se de um movimento com dupla face — buscar disciplina macroeconômica sem asfixiar um setor produtivo ainda vulnerável.
Em termos estratégicos, estamos vendo uma redefinição de frentes: a tectônica de poder global reorganiza fluxos de energia e receitas, enquanto a Rússia tenta recompor sua base produtiva em meio a preços de óleo estruturalmente mais baixos. É um tabuleiro onde cada peça — preços internacionais, decisões do Opec+, políticas fiscais e condicionantes geopolíticas — influencia a capacidade de Moscou de manter ritmo de crescimento sustentado.






















