Por Alessandro Vittorio Romano — Em Medicina Feminina Plural — Il Sapere Delle Donne Nella Storia (Edizioni Bollati-Boringhieri), a jornalista e escritora Daniela Minerva convida o leitor a seguir um rastro de conhecimentos que por muito tempo ficou nos bastidores da história oficial. Este livro percorre a trajetória das mulheres na medicina, mostrando como, numa história muitas vezes narrada pelo olhar masculino, a voz feminina permaneceu oculta apesar de essencial.
Minerva lembra que, enquanto os cronistas e os cânones científicos gravavam a história de um lado, do outro mulheres cuidavam da família, ensinavam práticas de cura, guardavam receitas de ervas e aperfeiçoavam tratamentos infantis. Dessa colheita cotidiana de saberes — que vai das plantas medicinais às práticas de prevenção e cuidado neonatal — emergiu uma tradição de medicina feminina que sustentou comunidades inteiras, mesmo sem acesso às instituições de poder.
O livro não se limita a uma arqueologia do passado: é também uma reflexão sobre o presente e as perspectivas futuras da medicina quando reconhece e integra esses saberes. Em diálogo com a obra, torna-se claro que a história da cura tem múltiplas vozes e que propor a diversidade de experiências é, ao mesmo tempo, um gesto de justiça e um convite a enriquecer a prática médica contemporânea.
Ao ler as páginas de Minerva, sinto o desabrochar de uma paisagem que por muito tempo esteve em sombra. A narrativa recupera o papel das mulheres como curadoras, farmacologistas e pediatras — competências que circularam fora dos salões das academias, na intimidade das casas e nas rotas dos mercados de ervas. É uma lembrança de que o saber pode crescer nas margens e, quando reconhecido, transformar o centro.
Como observador atento do cotidiano italiano, encontro nesta obra uma ligação com os ritmos sazonais e com o que chamo de “tempo interno do corpo”: a forma como tradições locais, conhecimentos sobre plantas e cuidado materno moldaram práticas de saúde baseadas na observação, na experiência e na comunhão com a natureza. Recuperar essa memória é como replantar raízes para um futuro em que a medicina seja mais plural e sensível.
Minerva também aponta que a invisibilidade histórica das mulheres na medicina não é apenas uma curiosidade do passado, mas um espelho para os desafios atuais: reconhecimento profissional, representação nas instituições e valorização dos saberes não ortodoxos. A obra propõe um caminho de redescoberta e de integração — uma colheita de hábitos que pode nutrir uma medicina mais humana.
Em suma, Medicina Feminina Plural é leitura necessária para quem deseja entender como se teceu, muitas vezes em silêncio, a inteligência das mulheres na arte de curar. É um chamado para que deixemos de ver a história da medicina como uma linha única e comecemos a ouvir a corala história invisível que esteve presente em lares, boticas e mãos curativas por séculos.
Nota do autor: a obra de Daniela Minerva abre uma janela para repensarmos nossa relação com o cuidado — um convite para reconhecer e valorizar as raízes do bem-estar que vêm das práticas comunitárias e da sabedoria feminina.






















