Na Itália, estima-se que cerca de 7 milhões de familiares atuem como caregiver, cuidando de uma pessoa querida que não é autossuficiente ou que convive com doenças crônicas, muitas vezes de natureza oncológica. Por trás desse número há trajetórias íntimas de dedicação, noites longas, isolamento, medo e um risco crescente de burnout — uma colheita pesada no tempo interno do corpo e da família.
Coincidindo com o World Cancer Day, celebrado em 4 de fevereiro, o grupo “La salute: un bene da difendere, un diritto da promuovere” reuniu, pelo quarto ano consecutivo, associações de pacientes, representantes políticos, clínicos e outros stakeholders. O pano de fundo do encontro foi o reconhecimento do papel central do caregiver familiar e o ponto de situação do trâmite parlamentar do DDL Locatelli, que formaliza esta figura pela primeira vez em solo italiano.
Para Annamaria Mancuso, presidente da Salute Donna Odv e coordenadora do grupo, a aprovação do projeto é motivo de esperança. “Recebemos com satisfação a aprovação do DDL, porque representa um primeiro e importantíssimo passo legislativo na direção que sempre defendemos”, declarou Mancuso. Ela sublinha a necessidade de que o diálogo constante entre associações, instituições e governo transforme este reconhecimento legal em medidas concretas de suporte.
O encontro destacou que o reconhecimento do caregiver não pode ficar apenas no papel: é preciso pensar em redes de apoio reais, políticas de conciliação trabalho-cuidados, acesso a serviços e formação específica. Sem essas raízes de suporte, muitas famílias sentem-se como árvores durante uma ventania — firmes no afeto, mas com risco de partir-se por falta de amparo.
Na minha observação sensível do cotidiano italiano, esta etapa legislativa se assemelha ao primeiro broto após um inverno prolongado: promissora, mas vulnerável. O verdadeiro teste será acompanhar a implementação: orçamentos, protocolos regionais, formação de profissionais e integração com serviços sociais e de saúde. Só assim a legislatura poderá florescer em benefícios palpáveis para quem cuida.
As histórias pessoais partilhadas no fórum lembram que o cuidado informal é também uma questão de saúde pública e de qualidade de vida coletiva. Investir nos caregivers é investir na respiração da cidade, na capacidade das comunidades de manterem-se unidas e saudáveis. A aprovação do DDL Locatelli representa um passo simbólico e institucional, mas a jornada para transformar esse gesto em proteção diária e sustentável está apenas começando.
Enquanto cidadão e cronista do bem-estar, acompanho com atenção o desenrolar desse processo. Que as estações futuras tragam políticas que nutram essas sementes de cuidado com recursos, formação e reconhecimento humano — para que as histórias de quem cuida deixem de ser de solidão e passem a compor uma rede de apoio que realmente faça sentido.






















