Um novo abalo na arquitetura da segurança israelense: o irmão do atual chefe do Shin Bet, Bezalel Zini, foi formalmente acusado de participar de um esquema de contrabando de bens para a faixa de Gaza. A investigação, já em andamento, aponta que além dele outros dois suspeitos serão indiciados pelo mesmo crime e que um grupo mais amplo — 13 pessoas — responde por delitos relacionados à segurança nacional, por supostamente facilitar a entrada de materiais que podem ter uso duplo.
Segundo fontes judiciais, Zini foi preso há cerca de duas semanas. Não se trata de um ator periférico: ele ocupa posição relevante na reserva das forças e integra a cadeia logística da chamada “Força Uriya”, unidade empregada em operações de demolição na Faixa de Gaza, com responsabilidade por equipamentos de engenharia pesada. Durante audiência recente, o irmão Shmuel Zini afirmou que “a verdade virá à luz”. Ao mesmo tempo, os advogados de defesa têm contestado a divulgação dos nomes dos investigados, argumentando risco à segurança pessoal e ao devido processo.
O escopo da apuração vai além de maços de cigarro. As autoridades descrevem a entrada irregular de baterias, smartphones de última geração e bicicletas elétricas — itens classificados como de “double use” por poderem ser adaptados a fins militares. O tráfego teria movimentado milhões de shekels, em um esquema que envolve desde contratados do Ministério da Defesa até trabalhadores de demolição, motoristas de caminhões de ajuda humanitária e veículos comerciais, além de militares e reservistas das Forças de Defesa de Israel (IDF).
Em paralelo, a procuradora-geral manifestou objeções quanto à eventual nomeação de Zini como novo chefe do Shin Bet, apontando para um claro conflito de interesses e “irregularidades relevantes no processo” que, segundo seu parecer, exigiriam a repetição rigorosa do procedimento de designação. A declaração institucional adiciona uma dimensão política ao caso, colocando uma peça sensível do tabuleiro institucional sob escrutínio público e jurídico.
Do ponto de vista estratégico, a investigação revela fissuras nos alicerces da segurança operacional: a manipulação de rotas logísticas e a possível conivência de profissionais encarregados de obras e de transporte expõem vulnerabilidades que extrapolam um simples delito econômico. Trata-se de um problema de confiança institucional que pode reverberar na capacidade de comando em operações futuras e na percepção pública sobre a imparcialidade das estruturas de segurança.
Como analista, observo este episódio como um movimento decisivo no tabuleiro interno de poder — um teste de resiliência para as normas e para a separação entre responsabilidades institucionais e interesses pessoais. A combinação de elementos criminais e de segurança nacional cria uma tectônica de poder que obrigará autoridades a restabelecer transparência e a reafirmar os mecanismos legais para evitar que lacunas logísticas se transformem em riscos estratégicos.
Nos próximos dias, será essencial acompanhar os desdobramentos judiciais, os passos da procuradoria e as respostas governamentais, especialmente na esfera política, onde o risco de contaminação institucional é elevado. A estabilidade da arquitetura de segurança exige que as investigações avancem com celeridade e sob escrutínio, preservando o Estado de Direito sem ceder à instrumentalização política.
Marco Severini
Analista sênior, Espresso Italia — visão de geopolítica e estratégia internacional






















