Por Marco Severini – Espresso Italia
Em um movimento que redesenha, peixe por peixe, o tabuleiro diplomático no Oriente Médio, a administração do Presidente Trump apresentou a Teerã três condições inegociáveis para prosseguir as conversações realizadas em Omã. As demandas norte-americanas, confirmadas por funcionários europeus, combinam objetivos nucleares, capacidades militares e influência regional: a interrupção total do enriquecimento de urânio (tanto com potencial militar quanto civil), limites rigorosos ao programa de mísseis iraniano e o fim do patrocínio a atores proxy como os Houthi, o Hezbollah e o Hamas.
Nos bastidores, a proposta americana assume caráter de movimento decisivo no xadrez estratégico: não se trata apenas de reduzir capacidades técnicas, mas de alterar alicerces da projeção de poder iraniana. Washington exige que Teerã renuncie ao enriquecimento de urânio em qualquer escala, impondo um recuo que afetaria, simultaneamente, dimensões militares e civis do programa nuclear. Paralelamente, as restrições solicitadas ao desenvolvimento balístico visam à limitação de alcance e quantidade de mísseis, reduzindo a capacidade de dissuasão convencional e de saturação regional.
O terceiro pilar da exigência procura desfazer a rede de influência que o Irã consolidou por meio de proxies: a exigência explícita é a cessação do apoio material e operacional a grupos como Houthi, Hezbollah e Hamas, responsáveis por ampliar a assimetria em teatros diversos, do Mar Vermelho às fronteiras israelenses. Trata-se de um pedido que toca, em última instância, na arquitetura de poder de Teerã: desmantelar ou reduzir substancialmente essas redes implica reconfigurar fronteiras invisíveis de influência.
Fontes relatam que as negociações em Omã ocorreram num clima tenso. A escalada de alertas — com bases americanas reforçadas, sítios nucleares iranianos blindados e Israel em máxima prontidão — reflete a fragilidade do processo. Informação em circulação aponta que Teerã estudou alternativas, como a eventual transferência de urânio enriquecido para terceiros, incluindo a Rússia, uma manobra que acrescentaria complexidade cartográfica à crise.
Um elemento estrutural nas comunicações persiste: os contatos do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, com interlocutores americanos são historicamente mediados por canais indiretos. Observadores salientam a dependência decisória de Araghchi em relação à figura da Guida Suprema, o aiatolá Khamenei, e a necessidade de referendar qualquer concessão nas esferas superiores do regime. Deste modo, o pedido americano é percebido em Teerã como tentativa de minar os fundamentos da autoridade xiita e os meios de defesa do Estado.
No plano operacional, o enviado americano Steve Witkoff teria programado encontros com Araghchi — inclusive um previsto em Istambul — num esforço por transformar exigências unilaterais em compromissos verificáveis. Ainda assim, a ausência de apelos sobre a política interna iraniana (repressão, liberdades civis) indica um enfoque exclusivamente estratégico-militar por parte de Washington.
Como analista, observo que estamos diante de movimentos de alto risco: a imposição de três condições simultâneas equivale a um xeque no centro do tabuleiro regional. Se aceitas, redesenharão a capacidade de projeção iraniana; se rejeitadas, ampliam as probabilidades de escalada. A diplomacia, nesse contexto, precisa de arquitetura sólida, verificação internacional e, sobretudo, entendimento sobre os limites aceitáveis de cada jogador. A estabilidade dependerá da combinação entre pressão coerente e artifício diplomático que permita saídas honráveis para ambas as partes.






















