Por Marco Severini — A tensão no teatro do Oriente Médio acelerou-se nas últimas horas, compondo um quadro de alta complexidade geopolítica. Um drone iraniano foi abatido por forças dos Estados Unidos no Mar Arábico, nas proximidades do Estreito de Ormuz, evento que reacendeu movimentos de forças e deixou as linhas de contenção em evidente pressão.
Em Washington, o presidente Trump tem mantido a via diplomática como preferência, anunciando intenção de prosseguir com negociações com Teerã — um gesto calculado que mistura contenção militar e abertura política. Na prática, porém, essa contenção vem acompanhada de reforço de presença militar na região: um alicerce defensivo e, ao mesmo tempo, um elemento de coerção sobre o adversário.
Em contrapartida, em Jerusalém o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu tem exercido forte pressão sobre os Estados Unidos. Segundo fontes diplomáticas e reportagens convergentes, Netanyahu reuniu‑se com o enviado especial norte‑americano Steve Witkoff e com chefes militares para apresentar a chamada linha das “três não”: nenhum programa nuclear, nenhum programa de mísseis balísticos e nenhum apoio a grupos proxy que ameaçam a segurança de Israel, como os Houthi, o Hezbollah e o Hamas.
O núcleo da disputa é claro e pragmático: Washington colocou sobre a mesa três demandas fundamentais a Teerã, condição para uma redução das hostilidades — cessar o enriquecimento de urânio em qualquer escala; impor limites drásticos ao programa de mísseis iraniano; e interromper o patrocínio a milícias e grupos armados regionais. São exigências que buscam redefinir, com regras, a tectônica de poder local e regional.
Do ponto de vista israelense, no entanto, tais medidas ainda não apagam uma sensação estratégica de vulnerabilidade. A preocupação oficial é que mísseis e drones iranianos, além da ação coordenada dos Houthi no Iêmen, possam encontrar brechas na defesa antiaérea — inclusive explorar limites do sistema Iron Dome — e impor um novo risco assimétrico sobre cidades e infraestruturas civis.
Assim, Israel procura empurrar Washington para um movimento mais determinado no tabuleiro: um ataque preventivo ou, ao menos, o consentimento tácito para ações unilaterais que visem desmontar capacidades sensíveis em Teerã. Do lado norte‑americano, há um cálculo pragmático para evitar uma escalada que possa transformar a competição regional em conflito aberto entre grandes atores, com consequências imprevisíveis para rotas marítimas, mercados de energia e alianças.
O encontro diplomático entre EUA e Irã, programado para sexta‑feira em Omã, assume caráter crítico no retrato atual. Trata‑se de um momento em que o equilíbrio entre dissuasão e diálogo será testado: um movimento decisivo no tabuleiro que poderá resguardar ganhos de segurança sem provocar o redesenho de fronteiras reais e invisíveis por meio de uma conflagração.
Minha leitura, como analista, é de que vivemos uma fase de fragilidades controladas — alicerces frágeis da diplomacia que exigem precisão na ação e na linguagem. Netanyahu oferece a narrativa da desconfiança total em Teerã; Trump responde com negociações acompanhadas de pressão militar. Entre esses vetores, passa a rota que definirá se a região se encaminhará para contenção reforçada ou para uma perigosa escalada.
Em suma: o próximo capítulo será escrito nas conversas de Omã e nos sinais militares que cada ator enviar ao adversário. Em termos estratégicos, é um lance de xadrez em que tanto a exposição quanto a paciência calculada podem decidir a posição final.






















