Por Chiara Lombardi — No Palazzo della Cultura de Catania, até 12 de julho, a mostra New York anni Ottanta reconstrói uma temporada histórica em que a cidade tornou-se palco e espelho de profundas transformações sociais, estéticas e identitárias. A exposição propõe um diálogo atento entre dois universos que, à primeira vista, parecem antagônicos: o Mainstream e o Underground, dois cenários que juntos compuseram o roteiro oculto daquela década.
O percurso reúne nomes consagrados que instalaram a arte no centro de debates públicos — Andy Warhol, Keith Haring, Jean-Michel Basquiat, Robert Indiana, Joseph Beuys, Robert Morris, Sol LeWitt e Arman — ao lado de protagonistas do subterrâneo urbano que reescreveram a paisagem visual da cidade: do break dance ao hip hop, dos graffiti ao street art, movimentos que reivindicavam emancipação social, racial e artística, dando corpo a um novo lifestyle metropolitano.
Além dos grandes nomes, a curadoria destaca figuras essenciais da cena informal: James Brown (com citações estéticas legadas ao imaginário precolombiano), Ronnie Cutrone, Richard Hambleton — considerado o “padrinho da street art” por suas sombras no Lower East Side —, Rammellzee, proponente do “panzerismo iconoclasta”, e artistas como A-One, Kool Koor e Coco 144. Essa convivência exibe como a cultura de massa e o underground se tocaram, conflitaram e se retroalimentaram.
A mostra, assinada pelos curadores Giuseppe Stagnitta e Marco Mantovani, patrocinada pelo Comune di Catania e produzida por Metamorfosi Eventi e Emergence Festival (com catálogo da Gangemi Editore), reúne mais de 150 obras vindas de coleções privadas internacionais e galerias importantes. O relato visual é enriquecido por fotografias emblemáticas de Helmut Newton, Christopher Makos e Martha Cooper, por uma célebre video-instalação de Henry Chalfante e por filmes inéditos da cena underground assinados pela filmmaker Alessandra Bergero.
Uma seção especial guarda a documentação fotográfica cedida por Elio Fiorucci, que registra a passagem de Keith Haring por Milão e a chegada, em 1984, dos primeiros graffiti writers norte-americanos a Quattordio — episódios que mostram como o eco cultural nova-iorquino reverberou pela Europa.
Na inauguração, o prefeito Enrico Trantino afirmou que “New York é uma cidade que continua a exercer um fascínio profondo e universale”, destacando os anos 1980 como uma fase de energia criativa e liberdade expressiva que marcou profundamente a história contemporânea. A fala do prefeito — que recorda suas próprias passagens pela cidade, inclusive correndo a maratona — revela como a exposição funciona também como uma narrativa coletiva: o encontro entre esforço, talento e beleza compartilhada.
Como analista cultural, vejo esta mostra menos como uma simples retrospectiva e mais como um exercício de semiótica do viral: um mosaico onde a estética e a militância se fundem, produzindo imagens que ainda hoje fazem eco nos modos de viver urbanos. Em linguagem cinematográfica, é como se estivéssemos revisitando um set onde o figurino, a trilha sonora e os adereços traduzem um tempo que mudou a gramática visual global.
New York anni Ottanta é, portanto, uma oportunidade para repensar as tramas entre cultura, política e visibilidade, uma vitrine que preserva memórias e convoca o público a ler os sinais deixados nas paredes, nas pistas e nas galerias — o roteiro oculto de uma década que permanece influente.






















