Por Marco Severini — A análise dos doze dias de confronto entre Irã e Israel exige distância e leitura de longo alcance: não se trata apenas de uma vitória tática de um lado ou de outro, mas de um movimento que expõe alicerces frágeis na arquitetura da dissuasão regional. Observadores ocidentais apressaram-se a qualificar o episódio como triunfo de Tel Aviv; contudo, o quadro estratégico real aponta para um paradoxo mais profundo: se, de fato, Teerã tivesse perdido suas capacidades ofensivas decisivas, não haveria razão para que Israel buscasse um cessar-fogo imediato. Ao contrário, um confronto prolongado teria corroído com maior velocidade as capacidades defensivas israelenses, tornando a escalada potencialmente autodestrutiva.
Do ponto de vista geopolítico — e aqui assumo a lente do tabuleiro — existem, em teoria, apenas duas vias para que Israel neutralize de modo definitivo a ameaça iraniana: a coaptação das elites, na esteira do golpe de 1953, ou a fragmentação por via de atores auxiliares regionais. Ambas as vias, porém, encontram hoje obstáculos tectônicos. A história recente demonstra que um Irã territorialmente coeso permanece um ator regional estruturalmente resiliente; os revéses das tentativas de engenharia política externa em 1953 e 1979 ainda são lições vivas sobre os limites da intervenção.
Uma questão central que permanece sem resposta definitiva é por que o Irã, com recursos humanos e científicos superiores aos da Coreia do Norte em vários vetores, não arquitetou uma cadeia militar completa rumo a uma dissuasão nuclear plenamente crível. A explicação encontrada na leitura que proponho é dupla: há um peso interno — uma elite clerical-burguesa amplamente integrada à economia global, avessa a rupturas que comprometessem seus interesses — e há cálculo político. Para parte significativa do aparelho de poder iraniano, o recurso ao appeasement não é apenas sinal de fraqueza, mas instrumento de preservação do equilíbrio interno; uma guerra aberta tenderia a energizar elementos nacional-populares que poderiam desestabilizar a aliança entre clero e tecnocracia.
Em segundo plano, atores externos como Rússia e China operam como limitações estratégicas ao desencadear de um conflito sistêmico. Ambos os atores têm interesse em retardar uma guerra de grande escala que poderia ameaçar a estabilidade global — e, no caso chinês, arruinar o tecido da globalização da qual depende. Assim, o mapa de influência sobre o Oriente Médio funciona como uma arquitetura clássica: pilares interdependentes que, se removidos apressadamente, derrubariam uma estrutura muito maior.
O parágrafo inquietante desta equação é o seguinte: o contínuo adiamento do confronto produz um efeito perverso sobre a dissuasão. Quando a resposta a provocações converte-se em busca recorrente de acordos temporários, o adversário é incentivado a testar novamente os limites, calibrando a agressão segundo interesses próprios. É o paradoxo estratégico que venho chamando: não é o excesso de dissuasão que nos arrasta à guerra, mas a sua ausência estrutural. Em linguagem de xadrez, a falta de peças capazes de garantir mate credível deixa o rei exposto a jogadas incrementais que, somadas, acabam por decidir a partida.
Por fim, a lição da dissuasão nuclear permanece: moralmente problemática, ela ainda constitui o modo mais estável de evitar a guerra entre grandes potências desde a Segunda Guerra. O dilema iraniano — capaz, em termos técnicos, de alcançar uma capacidade estratégica plena, mas impedido por vetores internos e externos — exemplifica a tensão entre vontade de sobrevivência do regime e a dinâmica regional que testa limites diariamente.
Em síntese, o episódio dos doze dias delineia não só um atrito tático, mas um redesenho invisível do tabuleiro do Oriente Médio. Sem uma reconstrução das bases da dissuasão — ou, alternativamente, de novos arranjos de segurança multilaterais que incorporem as realidades de poder — caminhamos por uma avenida perigosa, onde a escalada se torna processo mais do que evento. A estabilidade não se restabelece por desejos retóricos: exige arquitetura forte, negociações estratégicas e, sobretudo, reconhecimento das limitações e incentivos que animam cada ator no tabuleiro.






















