Por Marco Severini — Espresso Italia
O palco do Oriente Médio permanece sob intensa tensão. O cenário de um ataque dos EUA ao Irã, que até poucos dias era dado como iminente, sofreu um recuo estratégico: o presidente Trump opta por contenção, priorizando negociações sobre o arsenal nuclear e balístico do Irã, enquanto Israel pressiona por ações militares imediatas. É um embate de calendários e prioridades que redesenha temporariamente as linhas de influência na região.
Washington pondera os efeitos colaterais de um ataque — reações de Estados árabes, a possível ampliação do conflito envolvendo os Houthi no Mar Vermelho e no Golfo, e o risco de um alinhamento mais visível entre Moscou e Teerã. Para os estrategistas norte-americanos, a cautela é uma jogada no tabuleiro: evitar que um movimento precipitado provoque um xeque-mate indesejado.
Em contrapartida, Tel Aviv persegue um objetivo claro: agir antes de sofrer uma retaliação iraniana. O receio de Benjamin Netanyahu não é abstrato. Fontes israelenses citam a ameaça de mísseis e de drones iranianos e dos Houthi iemenitas — armamentos tecnologicamente simples, porém capazes de explorar vulnerabilidades do sistema Iron Dome, criando pontos de penetração na defesa aérea que, em termos práticos, equivalem a quebrar a muralha defensiva.
Em Teerã, a resposta à pressão externa combina endurecimento defensivo e manobras políticas. Há relatos de incremento das defesas em locais sensíveis do programa nuclear e de hipóteses sobre transferências de urânio enriquecido para Moscou, como forma de preservação de material estratégico. Ao mesmo tempo, as bases militares americanas na região foram reforçadas e centros nucleares iranianos têm sido blindados — sinais claros de que a região vive uma fase de mobilização contínua.
Um elemento diplomático importante entra no tabuleiro: o encontro previsto entre o enviado norte-americano Steve Witkoff e o ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi em Istambul. Se confirmado, será o primeiro contato entre oficiais iranianos e americanos desde o fracasso das negociações e os combates que abalaram a região no ano anterior. Para Washington, a conversa representa uma tentativa de convergir interesses e reduzir o risco de escalada; para Tel Aviv, um possível risco estratégico, pois negociações bem-sucedidas poderiam alterar o cálculo de oportunidade para uma ação militar.
Segundo fontes de segurança, Israel avalia reativar um plano concebido em 2009 para atingir os principais sítios nucleares — Bushehr, Natanz e Isfahan — e infraestruturas petrolíferas com munições do tipo “bunker busting” capazes de penetrar estruturas subterrâneas. O objetivo declarado seria degradar as capacidades iranianas de forma duradoura e elevar o custo político e militar de uma retomada acelerada do programa.
Essa dinâmica revela uma tectônica de poder onde, simultaneamente, se busca contenção e se prepara a ofensiva. No xadrez geopolítico do Oriente Médio, cada ator projeta movimentos futuros enquanto blinda suas posições atuais. A divergência entre a prudência americana e a pressa israelense cria um espaço perigoso: qualquer incidente — um míssil lançado precipitadamente, um ataque de drones no Mar Vermelho, ou um vazamento de informação tensa — pode transformar a crise latente em uma conflagração aberta.
Em suma, a situação atual é a de um momento estratégico em que os alicerces da diplomacia são frágeis. As cartas estão na mesa: negociações possíveis em Istambul, reforços militares em solo e mar, e planos de ataque que aguardam apenas o impulso político decisivo. O futuro imediato dependerá de quem fará o próximo movimento no tabuleiro e até que ponto os atores estarão dispostos a arriscar um redesenho de fronteiras invisíveis que poderia redestribuir esferas de influência por toda a região.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















