Marco Severini — Em momentos decisivos da história moderna, a cultura e a educação nunca foram meros enfeites após a conquista política: foram, frequentemente, o primeiro terreno de batalha e, muitas vezes, a condição fundadora de uma consciência libertadora. Antes que impérios sucumbam em campos de batalha, eles se corroem no imaginário coletivo; antes que exércitos se retirem, a hegemonia é derrotada nas palavras, nos currículos e nas narrativas que moldam uma sociedade.
Essa constatação, simples na superfície, tem implicações estratégicas profundas. O domínio colonial e neocolonial entendeu cedo que o poder se consolida também pela remodelação dos modos de pensar: escolas que produzem funcionários para o aparelho do império, línguas que substituem memórias, histórias que reescrevem identidades. Por isso, a libertação não é só um evento político; é um processo cultural e educativo de longo prazo destinado a reconstruir o sujeito — sua relação com a história, com a língua, com o trabalho e com a comunidade.
Olhemos para experiências históricas que iluminam essa lógica. No subcontinente indiano, a luta contra o domínio britânico não se limitou à esfera institucional. Mahatma Gandhi formulou uma alternativa educativa — a chamada «educação básica» — que valorizava saberes locais, ofícios e o trabalho manual como pilares de uma nova identidade nacional. Rabindranath Tagore, por sua vez, conceptualizou espaços escolares que respondiam à sensibilidade cultural indiana, desafiando o currículo colonizador. Esses foram movimentos de reconstrução cultural: tentativas deliberadas de romper o fio que ligava o indivíduo ao sistema de dominação.
Transportando o olhar para o espaço palestino e para o conjunto do mundo árabe, percebemos padrões semelhantes. A condição palestina é contemporaneamente política e cultural: a ocupação atua também por meio da linguagem, da educação e da representação internacional. As narrativas hegemônicas, quando não contestadas, naturalizam a presença do ocupante e diluem as memórias locais. Assim, qualquer projeto de emancipação deve priorizar políticas de reconstrução simbólica — preservação da língua, das artes, dos livros de história e dos espaços de ensino que cultivem uma identidade resistente.
O cenário global atual — de Gaza a Teerã, do Cáucaso ao continente latino-americano — mostra a renovada tensão entre políticas de poder e resistências culturais. As reações populares, muitas vezes expressão de uma tectônica de poder em transformação, indicam que decisões geopolíticas não se sustentam sem assentamento simbólico. Estados que promovem intervenções ou apoiam aliados repressivos enfrentam, ao cabo, um problema de legitimação: o tabuleiro estratégico exige não apenas posições militares, mas ocupação das mentes e das narrativas. O desequilíbrio surge quando a força no terreno não encontra correspondência na guerra cultural.
As lições práticas são, portanto, claras para qualquer ator que ambicione estabilidade duradoura: investir na educação que reafirma a memória coletiva, fomentar a cultura que resiste à assimilação e reconstruir instituições intelectuais que possam formar lideranças enraizadas em referências locais. É um processo de paciência estratégica — menos um golpe rápido no tabuleiro do que a construção metódica dos alicerces de uma nova ordem social.
Do ponto de vista de Estado ou de movimentos sociais, a prioridade deve ser a combinação entre reformas curriculares, capacitação docente, proteção do patrimônio cultural e promoção das artes como espaço de memória. Sem esses elementos, qualquer vitória política corre o risco de permanecer superficial: uma guarnição sobre um terreno que continua, por dentro, colonizado.
Em suma, a libertação contemporânea exige visão de longo prazo. Aqueles que desejam alterar as relações de poder precisam compreender o jogo na dimensão simbólica tanto quanto no campo material. A estratégia vencedora será a que souber mover peças no tabuleiro cultural com a mesma precisão com que se planejam manobras diplomáticas: redesenhar fronteiras invisíveis, consolidar identidades e assegurar que a história volte a pertencer a quem a vive.






















