Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no tabuleiro geopolítico, Tahnoon bin Zayed, coordenador de inteligência de Abu Dhabi, adquiriu 49% da empresa cripto associada à família Trump, a World Liberty Financial, em uma operação avaliada em aproximadamente US$500 milhões. O acordo, segundo documentos consultados, foi fechado poucos dias antes da posse do então presidente eleito.
A transação teria sido estruturada com uma primeira tranche de US$250 milhões desembolsada pela Aryam Investment. Deste montante, cerca de US$187 milhões teriam sido direcionados a uma entidade vinculada à família Trump; aproximadamente US$31 milhões teriam sido destinados a pessoas ligadas a Steve Witkoff, cofundador da World Liberty Financial e atual enviado dos EUA para o Médio Oriente; quantias semelhantes teriam seguido para entidades relacionadas aos cofundadores Zak Folkman e Chase Herro.
É relevante notar que esta é, até onde mostram os registros, a primeira vez em que um investidor estrangeiro se torna acionista relevante de uma empresa privada diretamente associada a um presidente eleito dos Estados Unidos. Nos documentos constam ainda cláusulas que transformariam o fundo emiratino no principal acionista externo, com direito a dois assentos no conselho de administração.
Paralelamente, e em um movimento que sugere articulação coordenada entre decisões econômicas e tecnológicas, a administração dos EUA autorizou o acesso dos Emirados Árabes Unidos a chips considerados entre os mais avançados para inteligência artificial (IA). Fontes indicam que a autorização culminou, dois meses após a posse, em uma reunião na Casa Branca entre o presidente e altos funcionários, na qual se acertou a liberação anual de até 500 mil chips de ponta para aplicações de IA.
As implicações desse duplo movimento — capital privado e transferência tecnológica — são profundas. Em termos de diplomacia e segurança, trata-se de um rearranjo de influência: a concessão de tecnologia sensível em troca de participação acionária estratégica altera o mapa de dependências tecnológicas e financeiras, como um lance preciso num jogo de xadrez que busca controlar centros vitais do tabuleiro.
Do lado institucional, a Casa Branca e os interessados negaram conflitos de interesse, afirmando que Trump não participaria da gestão direta da empresa adquirida. A declaração, porém, não dissipou as dúvidas de críticos e legisladores. A senadora Elizabeth Warren qualificou a operação como “corrupção”, pedindo a reversão da decisão de vender chips sensíveis aos Emirados.
O episódio também reativou discussões sobre tentativas prévias de fusão entre interesses financeiros ocidentais e fundos soberanos do Golfo. Relatórios recentes mostram que a Lazard recusou uma proposta de integração com entidades dos Emirados, expondo divergências estratégicas que impedem um casamento total entre grande banca americana e capital do Golfo.
Como analista de geopolítica, avalio esse pacote como um movimento de longo prazo: consolida-se um eixo de influência que combina capital, tecnologia e assentos nos conselhos corporativos — os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea. A leitura cuidada dos documentos e dos fluxos financeiros recomenda vigilância regulatória e parlamentar, pois as fronteiras de interesse entre Estado, tecnologia e capital privado foram, neste caso, sutilmente redesenhadas.
Imagem sugerida para publicação: fotografia de Tahnoon bin Zayed ao lado de edifícios financeiros, com sobreposição que remete a chips eletrônicos e o emblema da World Liberty Financial.






















