Por Chiara Lombardi — Em um momento em que muitos artistas revisit am suas trajetórias, Federico Zampaglione surpreende ao anunciar que voltou a gravar. Depois de ter pensado que o disco de 2021 seria o fim, surge Quando meno me lo aspetto, o 14º álbum do Tiromancino, marcado por uma liberdade sonora e emocional que soa como um reframe da própria carreira.
O álbum será lançado no dia 6 de fevereiro e será seguido por um tour teatral que começa em Roma no dia 10 de abril. A ideia inicial — não fazer mais discos — deu lugar a uma criação quase inesperada. Zampaglione conta que entrou em estúdio sem grandes planos, apenas para tirar do “cassetto” canções e saudades acumuladas. «Nasceu como um filho que não esperava», diz ele, e essa surpresa se traduz em um disco que dialoga com o instinto mais do que com a estratégia.
Musicalmente, Quando meno me lo aspetto é um trabalho muito tocado — predominam as guitarras, mais presentes do que em trabalhos anteriores. «As guitarras estavam zangadas comigo, me olhavam e pediam para sair», brinca Federico, explicando a presença mais forte de influências blues e rock. O resultado é um disco que soa íntimo e ao mesmo tempo enérgico, um espelho do nosso tempo que mistura introspecção com impulso sonoro.
Sobre o Festival de Sanremo, Zampaglione mantém distância. Ele confirma que chegou a considerar apresentar uma música, mas que a memória do episódio de 2008 — «catastrophicamente tragicômico», nas suas palavras — e a promessa que fez à mãe — que o aconselhou a não participar novamente — criaram um bloqueio emocional. Desde então, mesmo após a perda da mãe, o palco do festival ainda desperta ansiedade. Como espectador, ou como convidado, a experiência muda; em competição, porém, o risco do julgamento imediato por três minutos é algo que ele prefere evitar por enquanto. «Talvez eu precise resolver certos bloqueios interiores», admite, deixando em aberto a possibilidade de um retorno futuro.
Uma outra linha permanente do projeto é a colaboração com o pai, Domenico Zampaglione. Professor de história e filosofia, ele continua a contribuir liricamente — uma parceria iniciada oficialmente em 2004 com «Amore impossibile». No novo álbum há duas canções com letras dele: «Una vita» e «Gli alieni siamo noi», finalizadas por telefone enquanto Federico tocava acordes ao piano. Essa relação entre gerações dá ao trabalho uma dimensão reflexiva e quase ensaística, como se a música fosse também uma aula sobre memória e identidade.
O disco abre com duas faixas que ecoam a atualidade e suas camadas de desconforto. Zampaglione faz referência a arquivos sensíveis, como os «file di Epstein», e observa que muitos acontecimentos contemporâneos vão além do horror convencional — são material quase impossível de traduzir em ficção sem perder o sentido. Ele nota ainda uma sociedade acelerada, rápida em julgar e presa à aparência, onde a sensação de inadequação se prolifera.
Quanto ao panorama musical, sua visão é crítica, porém fundada: há muita coisa circulando — nem tudo vazio nem tudo mercenário. Ele cita nomes jovens com interesse e voz própria, como Kid Yugi, reconhecendo que o ecossistema sonoro atual contém visões relevantes. O disco, assim, se insere nesse cenário como um diálogo entre experiência e contemporaneidade, um roteiro oculto que tenta decifrar o presente sem nostalgia fácil.
O que fica é a imagem de um artista que reencontra a música como necessidade e não apenas como produção. Federico Zampaglione retorna com um álbum que é ao mesmo tempo confes-sional e público, íntimo e teatral — como um espelho do nosso tempo, onde cada faixa reflete um fragmento do mundo que vivemos.






















