Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura discretamente o tabuleiro da exploração espacial, uma inteligência artificial assumiu, pela primeira vez, papel ativo na escrita das ordens que guiaram um rover em solo marciano. Nos dias 8 e 10 de dezembro de 2025, o Perseverance executou dois deslocamentos no cratera Jezero seguindo os waypoints gerados pelo modelo Claude, desenvolvido pela Anthropic, em um teste operacional conduzido pelos engenheiros do Jet Propulsion Laboratory (JPL).
A decisão de submeter uma IA a essa tarefa nasce de uma limitação técnica e estratégica: o tempo de ida e volta do sinal entre a Terra e Marte — cerca de vinte minutos por trecho — impede qualquer intervenção em tempo real. Cada comando chega a um veículo que já terminou a instrução anterior, exigindo planejamento antecipado e uma cadeia de decisões em que a previsibilidade é vital. Nesse ambiente, a Anthropic — liderada por Dario Amodei — descreveu em seu relato público como Claude recebeu contexto operacional, dados históricos e procedimentos consolidados para compor um trecho de aproximadamente 400 metros em uma área de terreno pedregoso.
Historicamente, a definição dos waypoints — a chamada “breadcrumb trail” que marca pontos de passagem e orienta a navegação — permanecia um trabalho essencialmente humano. No experimento, o modelo foi solicitado a gerar comandos no Rover Markup Language, uma linguagem baseada em XML, compatível com os sistemas já empregados pelo JPL. Esses comandos não foram aceitos automaticamente: passaram por rigorosas simulações que modelaram centenas de milhares de variáveis para estimar posições, inclinações e riscos de atolamento ou derrapagem.
Na revisão final, os engenheiros aportaram correções pontuais. Algumas discrepâncias vieram do fato de que o modelo não dispunha de imagens a nível do solo que ofereceram leitura mais precisa de ondulações de areia em passagens estreitas — detalhes que, em uma analogia de cartografia, correspondem a desfiladeiros que só o olhar humano, treinado e prudente, consegue mapear com precisão. Ainda assim, o percurso resistiu: o Perseverance, operando em Marte desde fevereiro de 2021 com a missão de estudar geologia, clima e coletar amostras, completou o trecho previsto.
Do ponto de vista prático e estratégico, o uso de IA para planejar trajetos tem duas implicações claras. A primeira é operacional: processos de planejamento podem ser acelerados e tornar-se mais consistentes, reduzindo carga manual redundante e liberando equipes para tarefas analíticas de maior valor. A segunda é institucional: a introdução gradual de modelos como Claude no fluxo de decisões técnicas estabelece um precedente sobre até que ponto sistemas algorítmicos podem assumir tarefas táticas em missões críticas, sem comprometer as salvaguardas de verificação humana.
Como analista de geopolítica e estratégia, vejo esse episódio como um movimento decisivo no tabuleiro da tecnologia aplicada ao espaço — não um xeque-mate, mas um avanço calculado que modifica alicerces e expectativas. Assim como na diplomacia operacional, a integração de ferramentas autônomas exige protocolos firmes: validação extensa, redundância e transparência sobre limites e lacunas de dados. O experimento do JPL e da Anthropic demonstra que a tectônica de poder entre capacidade humana e automação pode ser realinhada sem rupturas abruptas, desde que as fronteiras do controle permaneçam claras.
Em suma, a primeira “rota” escrita por uma IA para um rover marciano é um passo prudente, estratégico e simbolicamente relevante: reduz a carga operacional imediata, amplia o leque de técnicas disponíveis e coloca na mesa questões duras sobre responsabilidade, certificação e escalonamento do uso de modelos de linguagem em ambientes onde cada movimento conta.




















