Em um episódio que redesenha fragilmente linhas de poder na Líbia, Saif al-Islam Gheddafi, filho do falecido rais Muammar Gheddafi, foi morto dentro de sua residência em Zintan. A execução, atribuída a um comando de quatro homens, foi confirmada pelo advogado francês do executivo político, Marcel Ceccaldi, em declaração à agência AFP; a identidade dos autores permanece desconhecida.
Segundo Ceccaldi, a segurança pessoal de Saif al-Islam Gheddafi encontrava-se comprometida havia algum tempo: relatos anteriores, datando de cerca de dez dias, já apontavam para ameaças graves à sua integridade. Esse quadro de risco culminou no ataque na residência do segundo filho do antigo líder, no noroeste do país.
O conselheiro político de Saif, Abdullah Othman, confirmou o falecimento em breve comunicado nas redes sociais, qualificando o ato como um gesto de traição. Em entrevista ao portal libio Fawasel, Othman solicitou oficialmente a abertura de uma investigação ao Procurador-Geral, pedindo o envio de uma equipe de perícia até Zintan para apurar as circunstâncias do homicídio. Em consonância com esse pedido, foi anunciado que a cerimônia fúnebre deverá ocorrer apenas após a conclusão das diligências iniciais.
Nas redes, Mohammed Abdulmuttalib al-Huni, ex-conselheiro do falecido, descreveu o episódio como obra de uma “mão do traidor” contra um homem que, segundo ele, nutria um projeto de renascimento para a Líbia. Essa leitura política, carregada de simbolismo, transforma a morte em peça de um ponto mais amplo de contestação e de possível recalibragem de forças.
Do ponto de vista estratégico, o episódio tem dimensões que extrapolam o tragismo pessoal: trata-se de um movimento de alto impacto no tabuleiro político líbio. Saif al-Islam Gheddafi sempre foi um ator com capacidade de catalisar lealdades e rivalidades; sua eliminação suscita interrogações sobre quem se beneficia do vácuo de autoridade e quais alianças serão redesenhadas nas próximas semanas. A operação também expõe os alicerces frágeis da diplomacia interna do país e a persistente cristalização de zonas de controle localizadas, como Zintan, que continuam a exercer influência decisiva na cena nacional.
À luz desses fatos, a resposta institucional — sobretudo a condução independente e transparente da investigação — será determinante para mitigar riscos de escalada. Sem isso, corre-se o risco de ver a Líbia sucumbir a novas ondas de retaliações e realinhamentos, um redesenho de fronteiras invisíveis que pode alterar o equilíbrio de poder na região.
Como analista das grandes tramas internacionais, observo que movimentos desta natureza raramente são isolados; são jogadas no tabuleiro estratégico cuja repercussão poderá ressoar na diplomacia regional e nas sementes de instabilidade que persistem desde 2011. As próximas 72 horas serão cruciais: elas dirão se o episódio produzirá apenas ruído político ou se inaugurará um novo ciclo de rearranjos.






















