Em uma narrativa que busca virar o espelho habitual do gênero, chega à Rai1 a minissérie L’invisibile – La cattura di Matteo Messina Denaro, exibida em duas noites: hoje, 3 de fevereiro, e amanhã, 4 de fevereiro. Produzida pela CamFilm em colaboração com a Rai Fiction e dirigida por Michele Soavi, a obra revisita, com fôlego dramático e responsabilidade histórica, a longa caçada que culminou na prisão de Matteo Messina Denaro em 16 de janeiro de 2023.
Três anos depois do fato real, a série opta por um reframe: não é uma “série de máfia” no sentido tradicional, mas um relato do lado do Estado que persegue e consegue capturar um dos últimos grandes nomes da Cosa Nostra. Foi assim que a diretora de Rai Fiction, Maria Pia Ammirati, descreveu a aposta editorial durante a apresentação: uma inversão de ponto de vista que transforma a ficção em um eco cultural do trabalho investigativo.
No centro do enredo está o coronel Lucio Gambera, interpretado por Lino Guanciale, com a missão impossível de levar ao Estado o homem que por décadas foi considerado intocável. Gambera recebe do seu comandante um ultimato — três meses para concluir a operação — e é nesse prazo que a trama concentra a tensão policial e humana. Em cena, Ninni Bruschetta dá corpo à figura de Messina Denaro, enquanto as investigações seguem a trilha da chamada operação “Tramonto”, conduzida na realidade pelo coronel Lucio Arcidiacono e executada pelo ROS dos Carabinieri.
Guanciale, ao falar sobre o projeto, sublinhou a responsabilidade de traduzir para a tela o valor do sacrifício humano: a série não busca apenas entreter, mas devolver “um fôlego de verdade” a um episódio sensível da história recente. Essa escolha aproxima a produção do que a própria Ammirati definiu como um “rendimento civil” do Serviço Público: mostrar o que aconteceu nos quase dois anos de investigação e nos seis meses finais da operação.
A dimensão íntima da história também ocupa espaço relevante. A vida pessoal de Gambera é posta à prova: a relação com a esposa Maria — vivida por Levante — e com os dois filhos sofre com as ausências e as limitações impostas pelo ofício. A cantora e compositora siciliana, aqui em um raro papel de atriz e a caminho de um retorno ao Festival de Sanremo, definiu seu personagem como a “parte emocional” do protagonista, enfatizando como o trabalho policial transforma as liberdades e os afetos de uma família inteira.
Ao olhar para a série, vale lembrar que se trata também de um exercício de memória coletiva: como um roteiro oculto da sociedade, a produção convida o espectador a refletir sobre o preço da segurança, a visibilidade do Estado e a forma como a ficção pode servir de espelho para acontecimentos reais. Em tempos em que entretenimento e responsabilidade pública se cruzam com frequência, L’invisibile propõe um retrato contido e elegante do conflito entre sombras e ordem — o encontro clínico entre investigação policial e a semiótica do poder organizado.
Exibida em dois capítulos, a minissérie promete entregar ao público não apenas a resolução de um caso policial emblemático, mas também o registro humano por trás das operações: os riscos, a persistência e o impacto sobre quem se dedica, em silêncio, a tarefas que influenciam o tecido democrático do país.






















