Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura nostalgia e ironia, Leonardo Pieraccioni publicou nas redes sociais uma pequena cena telefônica na qual, ao lado do amigo e parceiro de longa data Giorgio Panariello, alfineta com leveza o diretor artístico e apresentador do Festival de Sanremo 2026, Carlo Conti.
No vídeo, com seu sotaque toscano inconfundível, Pieraccioni comenta as escolhas recentes do festival: “Eh Giorgio… ascolta, ma quell’altro si è impazzito. Calimero si è impazzito. L’anno scorso ha chiamato Topo Gigio, quest’anno Sandokan”, diz, numa referência direta à presença anunciada de Can Yaman — protagonista da série da Rai intitulada Sandokan — entre os coapresentadores da primeira serata, ao lado de Carlo Conti e Laura Pausini.
A gag segue em tom de comédia leve, alinhando uma sucessão de risos e pequenas farpas: “Gli manca solo Spongebob e Mary Poppins, quest’anno noi non ci andremo, non ci mescoliamo”, conclui Pieraccioni, como se descrevesse um cardápio de convidados que mistura ícones de infância, aventuras em alto-mar e espetáculo pop. Nos comentários, Panariello aumenta o efeito cômico: “Quando invita il corvo Rockfeller ricoveriamolo”. Pieraccioni responde com uma tirada afiada: “Uno più abbronzato di lui non lo vorrebbe mai”.
Mais do que uma piada sobre escalação, a cena funciona como um espelho do nosso tempo: a curadoria de um grande evento televisivo torna-se um roteiro simbólico onde nostalgia, star-system e viralidade disputam o mesmo palco. É a semiótica do viral vestida de sketch — e, nessa linguagem, os três protagonistas — Pieraccioni, Panariello e Conti — exercem papéis que alternam afeto e ironia.
Vale lembrar que a brincadeira ressalta também um laço pessoal inquebrável. Carlo Conti mesmo, em entrevista ao programa Verissimo no dia 1º de fevereiro, relembrou esse afeto: “Siamo fratelli nella vita da sempre” — uma declaração que transforma a alfinetada pública em cena de um teatro íntimo entre velhos amigos.
Como analista cultural, vejo nessa pequena peça uma espécie de reframe da realidade midiática: o que parece apenas uma provocação é, na verdade, um comentário sobre como os formatos televisivos contemporâneos recuperam arquétipos infantis, heróis de folclore e ícones pop para construir espetáculos que falam tanto ao presente quanto à memória coletiva. Entre uma risada e outra, o vídeo de Pieraccioni nos lembra que, no roteiro oculto da sociedade, o entretenimento continua sendo uma lente para ler tensões e afetos — e que, por vezes, a melhor crítica vem em forma de piada entre irmãos de cena.






















