Em um ritmo quase cinematográfico, a Nuova Orchestra da Camera Ferruccio Busoni encerrou um périplo de sete apresentações em dez dias, levando música e presença artística a cidades onde o concerto sinfônico é, muitas vezes, um evento raro. O percurso incluiu Pescara, Campobasso, Mola di Bari, Napoli, Chiaravalle Centrale, Messina e Lamezia Terme, atravessando seis regiões e confirmando a força de um projeto que mira a circulação cultural como política pública.
Sob a regência do Maestro Massimo Belli, o ensemble contou com a participação como solistas do acordeonista Gianni Fassetta e do violinista Lucio Degani. Foram 7 concertos em 10 dias que funcionaram como um espelho do nosso tempo: a música popular erudita — de tangos a trilhas sonoras— serviu como roteiro para compreender memórias coletivas e identidades locais.
O ciclo é o primeiro momento concreto do projeto Circolazione Musicale in Italia 2026, promovido pelo CIDIM (Comitato Nazionale Italiano Musica) em parceria com a AIAM. Conforme ressalta Francescantonio Pollice, presidente do CIDIM e da AIAM, a iniciativa tem o propósito de potenziare — fortalecer — a atividade concertística em regiões onde a chegada de produções importantes esbarra em dificuldades logísticas e de investimento.
Em cada parada, a orquestra apresentou um repertório pensado para dialogar com públicos diversos, incluindo obras e arranjos de Astor Piazzolla, Ennio Morricone, Luis Bacalov e Nino Rota. Essa curadoria funcionou como um manifesto sonoro: juntar o tango, o cinema e a canção popular dentro da sala de concerto é reescrever a narrativa cultural, um verdadeiro reframe da memória coletiva.
O projeto conta com o apoio da Direzione Generale Spettacolo do Ministero della Cultura, e Pollice observa que além de promover artistas jovens, as turnês tocam cidades e pequenos municípios onde a oferta cultural é menor, apesar de uma demanda evidente — algo visível pela frequência e atenção do público nas plateias.
Como analista cultural, vejo nesse tour não apenas uma série de apresentações, mas um gesto estratégico: é o roteiro oculto da sociedade sendo revelado por meio da música. Cada concerto funcionou como um espelho, refletindo expectativas locais, memórias familiares e o desejo de pertencimento. A Nuova Orchestra da Camera Ferruccio Busoni, guiada por Massimo Belli, mostrou que técnica e sensibilidade interpretativa podem transformar pequenas praças e teatros em cenários de transformação.
Ao finalizar este circuito de 10 dias, resta a sensação de que a circulação musical é uma política cultural que se concretiza em encontros reais — plateias que retomam o hábito do concerto, jovens músicos que ganham visibilidade e repertórios que cruzam fronteiras estéticas. Um roteiro que, como um bom filme europeu, deixa perguntas mais do que respostas: para onde vamos quando levamos cultura além dos centros? E que ecos culturais isso provoca nas comunidades?





















