Em uma tomada de posição pública, o escritor britânico Neil Gaiman, 65 anos, rompeu o silêncio sobre as alegações de agressões sexuais que vieram à tona desde o verão de 2024. Autor de obras que são parte do imaginário contemporâneo como Sandman e American Gods, Gaiman rejeitou categoricamente todas as acusações, descrevendo-se como vítima de uma “campanha de difamação“.
Na sua declaração, o autor afirma possuir “emails, mensagens de texto e provas em vídeo” que, segundo ele, desmentiriam as narrativas apresentadas por diversas mulheres nos últimos dois anos. Gaiman critica a cobertura midiática, acusando-a de priorizar a indignação e a visibilidade em detrimento da verificação documental: uma espécie de “câmara de eco” que teria silenciado elementos favoráveis à sua versão.
O caso teve impacto imediato no setor cultural e editorial. Projetos ligados ao nome de Gaiman foram suspensos ou reconfigurados: a adaptação cinematográfica de The Graveyard Book pela Disney foi paralisada; a terceira temporada de Good Omens foi concluída com um epílogo abreviado; a parceria com Dark Horse Comics foi interrompida; a DC Comics retirou do catálogo uma reimpressão prevista de The Sandman; e uma produção teatral de Coraline foi cancelada. Essas decisões, tomadas à margem de veredictos judiciais, refletem a prioridade das empresas em gerir riscos reputacionais num cenário de sensibilidade pública elevada.
No plano jurídico, um dos processos mais relevantes é o movido por Scarlett Pavlovich, que em fevereiro de 2025 apresentou queixa nos Estados Unidos, acusando Gaiman de violência sexual, coerção e tráfico de pessoas por fatos que teriam ocorrido em 2022, na Nova Zelândia. Em outubro de 2025, um tribunal norte-americano declarou-se incompetente por matéria de jurisdição, remetendo a investigação às autoridades neozelandesas sem analisar o mérito das acusações.
Outras vozes também vieram à tona em 2024, entre elas a de Caroline Wallner, ex-colaboradora que relatou supostas agressões no final dos anos 2010, num contexto que descreveu como marcado por pressões econômicas e relações de dependência profissional. Há ainda depoimentos que apontam para episódios ocorridos entre 2003 e 2013, inclusive durante turnês promocionais.
Gaiman cita, na sua defesa pública, uma análise de contra-informação publicada por um blogueiro anônimo que assina como TechnoPathology no Substack, e exige que elementos documentais por ele apresentados sejam considerados num debate que, segundo o autor, tem sido mais performativo do que investigativo.
Enquanto instituições culturais e editoras reavaliam parcerias, a cena se apresenta como um espelho do nosso tempo: ao mesmo tempo em que a denúncia tornou-se um mecanismo essencial de visibilidade e justiça, a resposta institucional também cria um roteiro prático que atua antes de decisões judiciais, moldando carreiras e obras. Esta é uma história sobre reputações, produções culturais interrompidas e a tensão entre presunção de inocência e pressão pública — o roteiro oculto da sociedade em ação.
Como analista cultural, observo nesta sequência de eventos um eco que vai além do caso individual: é um reframe da realidade em que as práticas da indústria, a rapidez editorial e a dinâmica das redes sociais reescrevem destinos artísticos. Cabe aos órgãos competentes apurar os fatos, mas também à crítica cultural manter um olhar que não se resuma ao sensacionalismo. O modo como esse capítulo será encerrado terá implicações duradouras para a produção literária e audiovisual, e para a confiança institucional que sustenta o mercado cultural.






















